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Edição #149
dezembro de 2010
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Iluminando: A cor da luz
por Farlley Derze 18/12/2011
Autor: Título: Uma das maravilhas que a natureza nos proporciona durante as 24 horas do dia é a poesia das cores da luz. Nós, brasileiros, devido à posição de nosso território no globo terrestre, podemos contemplar as nuances coloridas no horizonte quando desperta o sol ou quando, ao anoitecer, ele se despede. Por outro lado, os povos que habitam próximo aos polos têm a chance de assistir a outro espetáculo de cores: a aurora boreal, no Polo Norte, e a aurora austral, no Polo Sul, quando rajadas de vento solar (neutrinos) colidem com o conjunto de gases de nossa atmosfera. Resultado: um balé de cores em movimento a altitudes que variam entre 80 km a 200 km, sendo que cada cor representa um tipo de gás.

Como o assunto é a cor, olhemos para a realidade tecnológica da iluminação artificial dos dias atuais. Quem frequenta casas de espetáculos tem a oportunidade de assistir, em peças de teatro ou shows de dança e música, a uma multidão de cores que dialogam com a cena. Então, podemos pensar metaforicamente em linguagem ou linguagens de iluminação, tal qual ocorreu no mundo da pintura ocidental e suas linguagens: pintura medieval, renascentista, barroca, neoclássica, romântica e uma avalanche de "ismos" que caracterizou a pintura moderna (impressionismo, pontilhismo, expressionismo, futurismo, cubismo, primitivismo, raionismo, construtivismo, fauvismo, surrealismo, abstracionismo...).

Assim como havia um grupo de pintores representando cada linguagem pictórica, nas linguagens da iluminação cênica há um grupo de artistas que as representam: os iluminadores cênicos. Pintores e iluminadores cênicos têm muito em comum. Refiro-me à maneira como conjugam poeticamente a cor, os contrastes de luz (do brilho mais intenso ao facho mais tênue), os diálogos entre luz, sombra e escuridão, a distribuição dos movimentos de luz que convidam nossos olhos a passear pelas superfícies e vãos que se alternam no espaço. Por trás do repertório poético de cada profissional há o repertório tecnológico com o qual lidam para unir conhecimento e criatividade a serviço da cena a ser iluminada

Os pintores medievais, renascentistas, barrocos, faziam de forma caseira suas tintas coloridas com gema de ovo, sangue de animais, metais oxidados, ervas, carvão e óleos vegetais. Após entrevistar dezenas de iluminadores cênicos brasileiros, descobri que muitos deles criaram artefatos como mesas de luz, refletores e dimmers, entre outros, artesanalmente. Souberam dar soluções muito criativas para a obtenção de luz colorida, bem como para a obtenção de materiais para montar refletores. Um deles me contou que pegava restos da indústria automobilística, como uma porta de Fusca, e em casa retorcia a chapa para montar um refletor do tipo PC. Eu adoraria apresentar aqui, nessa coluna, em edições futuras, as histórias que ouvi desses profissionais.

Como prometi na edição anterior, vou compartilhar com vocês a ideia que o italiano Sebastiano Serlio teve em 1551 e que deu origem à iluminação colorida na cena. Com base na fonte bibliográfica que tenho em meus arquivos, um livro de 1929 chamado The history of stage and theatre lighiting, Sebastiano Serlio trabalhava em um teatro no século 16 e teve a ideia de posicionar algumas velas atrás de garrafas de vidro que estavam cheias de uma mistura de água com líquidos de cor vermelha ou azul. O resultado foi a propagação de luz colorida por causa das propriedades físicas da luz, como reflexão e refração. Para intensificar o efeito, ele posicionou atrás das velas uma espécie de disco de metal para aumentar o poder de reflexão. Como se fosse um espelho. O conjunto então era: garrafas cheias de líquidos coloridos, velas por trás delas e, atrás das velas, as superfícies metálicas. Caso o prezado leitor tenha interesse em ler esse livro, eu o tenho no formato digital (PDF). Basta solicitar por e-mail (endereço no final da seção) que envio a você.

Agora nos resta fazer uso da imaginação para vislumbramos o efeito luminoso - cênico - proporcionado pela ideia desse italiano renascentista, que viveu em uma época em que um ambiente fechado como o teatro dispunha apenas da chama acesa como fonte de luz a contracenar com manchas de escuridão. Imaginemos agora as velas, garrafas coloridas e superfícies metálicas a esparramar cores na cena teatral.

Nos dias atuais, o diodo emissor de luz (LED) é a vedete tecnológica. Oferece baixo consumo energético, pouca dissipação de calor e grande variedade de cores. Entretanto, é importante ouvir o que pensam os membros da Associação Brasileira de Iluminação Cênica (AbrIC), os membros do Instituto Brasileiro de Tecnologia Teatral (IBTT) e os professores do Instituto de Pós-Graduação (IPOG), que juntos formam uma rede cultural de profissionais da iluminação. Eles apontam limites do LED no que tange às respostas dessa fonte de luz ao dinamismo das linguagens da iluminação cênica, mais especificamente no âmbito do teatro, já que no âmbito da iluminação arquitetural já foram encontradas soluções para, por exemplo, colorir fachadas e demais elementos estáticos.

Pela lógica histórica, o tempo é o recurso que funciona para aperfeiçoar as soluções tecnológicas que nascem rudimentares e limitadas até que se encontrem mais lapidadas. Desenvolvidas, elas têm maior proveito em determinada área de atuação, com base nas intenções de cada geração profissional que tenha oportunidade de interagir com os diversos estágios da tecnologia. Foi assim com a iluminação cênica, com velas e archotes sendo utilizados desde a Idade Média até quando passaram a estar disponíveis os lampiões a querosene e lâmpadas a gás, no século 19. Com a conquista da eletricidade, uma família de lâmpadas de arco-voltaico e incandescentes aos poucos proporcionou recursos técnicos e artísticos como a dimerização, que, ao lado do repertório crescente de tipos de refletores e jogos de cores, possibilitaram mais plasticidade na linguagem artística do iluminador cênico que recita sua poesia no espaço.

Eu acredito na iluminação cênica como mais um bom ingrediente, dentre as inúmeras formas que nós temos à disposição, para se compreender facetas do mundo da arte e da ciência na conexão entre sensações biológicas, realidade cultural e avanços tecnológicos.

Dos ritos medievais à indústria do entretenimento, a iluminação cênica nasceu e se desenvolveu graças àqueles que descobriram como provocar a imaginação humana.

Farlley Derze é professor do Instituto de Pós-Graduação, doutorando em Arquitetura, diretor de Gestão e Pesquisa da empresa Jamile Tormann Iluminação Cênica e Arquitetural e membro do Núcleo de Estética e Semiótica da UnB. E-mail: diretoria@jamiletormann.com
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