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Edição #160
novembro de 2012
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Iluminando: Luz neoclássica: A morte de Sócrates (Jacques Louis David, 1787)
A REPRESENTAÇÃO DA LUZ NA PINTURA OCIDENTAL (Parte 2)
por Farlley Derze 08/12/2012
 

O mundo ocidental viu florescer no século 18 a normatização da ciência por meio da sistematização dos métodos que cada cientista empregava em suas experiências com vegetais, animais, gases, minerais, líquidos e até com comportamento humano, de modo que na segunda metade daquele século estava formado o ambiente propício para dar origem à industrialização dos materiais. Em pouco tempo, obras artísticas também estariam industrializadas e chegariam ao alcance de um público maior, inclusive o de outros países.

O filósofo Walter Benjamin escreve no século 20 sobre "a obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica", publicado apenas em 1955. A industrialização em massa de um produto (Revolução Industrial do século 18) transformou o modo como o homem se comunicaria, bem como a maneira de lidar com os materiais disponibilizados pelo mundo cada vez mais mecanizado. A curiosidade dos cientistas que viviam noite e dia em seus laboratórios para desvendar mistérios da natureza tornou possível a invenção de lâmpadas a gás (1792) e, ao raiar do século 19, a lâmpada elétrica (1808), ambas criadas na Inglaterra. Em pouco tempo, os empresários se ocupariam da reprodutibilidade técnica dos inventos que foram socializados no mundo. Em 1820 seria a vez da invenção e popularização da fotografia.

Bem: se antes do século 19 o mundo dependeu dos pintores para registrar com tintas e pincéis os eventos particulares e públicos, a máquina fotográfica poderia fazer o mesmo. Resultado: os pintores deixariam de pintar aquilo que seus olhos viam ou aquilo que lhes era encomendado a pintar para produzir uma pintura com outros olhos - os olhos da imaginação. Nascia a arte moderna. Cada pintor tinha sua própria imaginação, e, por conta disso, a forma de manipular as cores e os pincéis traria novidades nas cores, nas formas, nos temas representados em suas telas. Do século 18 ao século 20 o mundo mecanizado ou tecnológico vai impor um novo ritmo à sociedade e novos conceitos sobre arte.

A LUZ NEOCLÁSSICA

Estamos na segunda metade do século 18. Já sabemos o que vai acontecer no futuro com a industrialização que se inicia nesse ponto da história. Enquanto a ciência produz seus inventos, a luz da pintura neoclássica é simbolizada pelo branco translúcido da luz do Sol com a visualização de manchas que representam sombras mais sutis que aquelas do movimento anterior (barroco = sombras escuras ou áreas não iluminadas). A representação da luz neoclássica quer recuperar a luz renascentista, mas não elimina a influência mais recente do barroco (sombras).

Bem, a ideia central na representação da luz neoclássica é fazer o mesmo que os renascentistas: deixar visível tudo o que foi pintado na superfície da tela. A ocorrência da sombra não deve comprometer a visualização das partes. Resultado: podemos dizer que a representação da luz na pintura renascentista (séculos 15 e 16) e neoclássica (século 18) possui a mesma... digamos... genética estilística. O fato da pintura neoclássica buscar referência no passado (o renascimento), não difere das situações que encontramos em nosso cotidiano. Há inúmeras lojas especializadas em vender lustres, luminárias, mobiliário e eletrodomésticos que pertenceram ao passado. A diferença é que no passado se estava diante de um produto que representava a modernidade com os recursos materiais e tecnológicos disponíveis de sua época e tinha sua função utilitária no cotidiano, e no futuro será retomado com outro valor: valor histórico, valor afetivo, valor artístico... negociados a preços especulativos.

A LUZ ROMÂNTICA

Estamos na primeira metade do século 19. O romantismo nasce na literatura e se espalha nas demais vertentes artísticas: pintura, música, teatro, arquitetura. Em resposta ao romantismo, nasceu também, da literatura, o realismo. O romantismo e o realismo foram forças contrárias, pois uma se direcionava a imagens oníricas ou de uma sociedade ideal, enquanto a outra queria mostrar a realidade do mundo, dos trabalhadores no campo, nas fábricas, e a realidade dos conflitos sociais. Assim, a representação da luz será feita com vários pontos de luz e sombras em vários pontos da superfície da tela, como se luz e sombra, ou área iluminada e área escura, disputassem um lugar.

O resultado visual nos inspira a lembrar do resultado visual da pintura barroca (século 17 e primeira metade do século 18). É como se a luz romântica fosse uma releitura da luz barroca... então... outro caso de genética estilística. A diferença é que enquanto na luz barroca a luz incide numa área específica da tela em oposição à outra área da mesma, onde não incide luz, na luz romântica são vários pontos onde a luz incide na tela em oposição a pequeninas áreas onde a luz não alcança, ou áreas cobertas por manchas de sombra.





A LUZ MODERNA

Estamos na segunda metade do século 19. Surge uma relação de oposição entre romantismo e realismo (uma pintura que pretende mostrar "a vida como ela é"). Desse embate surgirá uma prole de "ismos". E "ismos" será o sobrenome da arte moderna: impressionismo, pontilhismo, fovismo, neoplasticismo, cubismo, expressionismo, futurismo, primitivismo, raionismo, suprematismo, construtivismo, dadaísmo, surrealismo. Nesse ponto da história testemunham-se as consequências visuais na representação da luz na pintura ocidental após o surgimento da máquina fotográfica.

O pintor francês Monet vai pintar, em 1872, a tela Impressions soleil levant (impressões do sol nascente). Essa obra veio a público apenas dois anos depois, quando já havia um grupo de outros pintores "impressionistas", e juntos apresentaram suas obras dentro de uma galeria, já que no museu não teriam a menor chance. A ideia da pintura impressionista era capturar a luz atmosférica, ou seja, a luz natural que incidia no ambiente em determinado horário. Monet pintou a fachada da catedral de Rouen mais de 30 vezes para demonstrar que a luz era diferente no outono, na primavera, no verão, no inverno, às 9h, às 12h, às 17h... de modo que o conceito da pintura impressionista era fixar na tela a impressão recebida em nossos olhos pela luz atmosférica em determinado horário. Isso explica a velocidade com a qual o pincel foi manipulado na superfície da tela, afinal, a nitidez dos objetos e cenas representadas na imagem eram menos importantes do que deixar registrada com tintas e cores a impressão da luz no horário em que o pintor capturava a imagem. Monet chegou a retirar suas telas e tintas de casa e montou seu estúdio em um barco para poder produzir inúmeras telas ao longo do dia. Conclusão: a luz natural deu origem ao conceito que estruturou esse movimento artístico.
 

 


Mas a luz artificial, com a luz elétrica, vai dar o tom que faltava ao significado da palavra "modernidade". O pintor russo Larionov traduziu os fachos de luz elétrica em suas obras e chamou sua forma de pintar de "raionismo" (raios de luz). Quando vejo suas telas, me lembro dos fachos de luz que tantas vezes vi em shows de música.



O termo "moderno" foi aplicado às artes como à música, à pintura, à arquitetura, à escultura, ao teatro, à dança, como um modo de dizer que as ideias, o mundo, a vida estava em transformação. E a luz elétrica, assim como a luz natural, também inspirou os artistas da pintura, conforme pode ser visto as obras apresentadas aqui. A luz elétrica, além de transformar as cenas teatrais e os shows de música na companhia de refletores de todo tipo e formato, gobos, lentes, movings, mesas analógicas ou digitais, também transformou as noites urbanas, que nunca mais foram as mesmas desde que o mundo noturno conheceu as lâmpadas a arco voltaico, as incandescentes, as lâmpadas de neon, as fluorescentes, as de sódio e mercúrio nas vias públicas, as halógenas, a fibra ótica, os LEDs...

A cidade moderna nasceu à noite.



SÍNTESE

Neoclássico (segunda metade do séc. 18): Representação da luz com tonalidades da cor branca translúcida (influência renascentista) que traduz a luz do Sol difusa no ambiente e com representação de sombras que não comprometem a visualização do que foi pintado na tela.

Romantismo (primeira metade do séc. 19): Representação da luz com tonalidades amareladas que traduzem vários fachos de luz salpicados na superfície da tela, entremeados por diversas manchas de sombras.

Modernismo (segunda metade do séc. 19 e primeira metade do séc. 20): Representação da luz segundo o conceito do pintor - representar a luz atmosférica no horário em que pintava a cena; representar os raios de luz elétrica; representar a vida social noturna.


PAUSA PARA UMA XÍCARA DE CHÁ [[LUIZ, INSERIR IMAGEM DA XÍCARA]]

Gostaria de recomendar o A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, de Walter Benjamin.

Farlley Derze é professor do Instituto de Pós-Graduação, diretor de Gestão e Pesquisa da empresa Jamile Tormann Iluminação Cênica e Arquitetural e membro do Núcleo de Estética e Semiótica da
UnB. Doutorando em Arquitetura.
E-mail:
diretoria@jamiletormann.com
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