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Edição #150
janeiro de 2012
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Iluminando: O toque da luz
por Farlley Derze 26/01/2012
foto: Farlley Derze
OUTROS TOQUES
É primavera em nosso país. O nome primavera significa "o primeiro verão", sendo que a origem do significado remonta à Europa e indica que a luz do sol ressurge a cada ano, após um período em que alguns países se encontravam imersos no inverno. A primavera de lá não coincide com a primavera daqui. Entretanto, o resultado luminoso e térmico é aproximado: a primavera traz mais luz e calor. O toque dessa luz faz desabrochar as flores, faz cantar as cigarras, faz o ar esquentar.

Aqui, nos trópicos, a luz solar bronzeia bastante a nossa pele. Há uma fértil interação entre a vida biológica de nossas células e a energia luminosa que as toca por um período de tempo. É a materialidade da luz em contato com a materialidade biológica de cada um de nós. Energias que se tocam, energias que se trocam. Mas essa poesia energética que recita o ritmo da vida pode também cochichar sílabas sorrateiras. Refiro-me à desorganização do crescimento celular, conhecida pela palavra "câncer". A pele exposta erroneamente ao sol que a toca e a aquece está sujeita aos tentáculos de uma sombra silenciosa que pode levar nosso corpo à falência.

A PELE E A LUZ NATURAL

Em outubro de 2010, participei aqui em Brasília de uma campanha contra o câncer de pele, a convite da médica dermatologista Dra. Lúcia Lyra. Com minha câmera de vídeo digital, gravei uma entrevista que ela fez com o presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia. Lá pelas tantas perguntei a ele qual era o critério para a gente escolher o filtro solar com o fator de proteção mais adequado, já que nas farmácias há diversos: 15, 30, 60 etc. Ele disse: "quanto mais clara a pele, maior deve ser o número; um negro pode usar o número mais baixo de fator de proteção".

Conclusão: esses filtros são uma resposta para a ciência, que descobriu que a luz do sol pode ser benéfica ao ser humano nos primeiros raios da manhã, mas muito prejudicial por volta do meio-dia, quando a exposição frequente à radiação pode determinar o aparecimento do câncer de pele.

A PELE E A LUZ ARTIFICIAL

Na mesma entrevista aprendi outra coisa: a luz artificial com finalidade de bronzeamento artificial está associada ao câncer de pele. Como a faixa de luz vilã dessa história é a ultravioleta, e tendo em vista que essa radiação é a mesma que existe em lâmpadas fluorescentes que tocam nossa pele nos mais variados ambientes de nosso cotidiano, começou a circular na internet um mito de que lâmpadas fluorescentes estão associadas ao câncer de pele.

Entretanto, um estudo recente, disponível em www.nema.org (realizado pela Associação dos Fabricantes de Equipamentos Elétricos para Diagnósticos por Imagem, com sede na Virgínia, EUA), concluiu que oito horas de exposição aos raios ultravioletas existentes em um ambiente iluminado com lâmpadas fluorescentes equivale a um minuto de exposição à luz do sol no verão. Conclusão matemática deles: as lâmpadas fluorescentes não poderiam ser associadas ao câncer de pele.

QUANDO TOCA NO OBJETO

Interpretamos mais facilmente a materialidade da luz quando ela nos toca, graças à sua temperatura. E o que acontece quando ela atinge objetos? Muita gente já experimentou aquela frustração de não poder fotografar obras de arte, já que os disparos dos flashes das máquinas fotográficas contribuiriam para deteriorar as tintas originais usadas nas superfícies de porcelanas, telas, madeiras, papel... E por falar em papel, certa noite fui testemunha do poder da luz quando toca os objetos.

Sou tecladista e atuei profissionalmente em todo o Brasil durante os anos 1980 e 1990. Eu estava no palco para tocar num show do Jorge Benjor que acontecia num palanque armado ao ar livre. O show transcorria tranquilamente e todos nós da banda nos divertíamos, juntamente com o operador de PA e o operador de luz, quando, de repente, senti um cheiro de queimado, e mesmo o vento do ar livre não dissipava aquele cheiro. Ninguém parecia perceber, e eu mantinha a atenção no meu trabalho, nas teclas, mas o cheiro ficava mais forte a cada instante.

Depois de um tempo olhando para cima e para os lados, encontrei no chão a explicação: uma partitura do repertório havia voado de minha estante e grudado na gelatina de um refletor impar posicionado no chão. A fumaça brotava do centro da partitura. Tive que tiras as mãos do teclado e rapidamente retirei aquela partitura, ou melhor, a "ex-partitura" que o refletor deglutia com sua luz. Em casa eu olhava aquela partitura com uma mancha escura em forma de círculo no meio da folha com áreas carbonizadas. No dia seguinte aquele cheiro ainda estava lá. A luz torrou dezenas de semínimas, colcheias e semicolcheias.

ADEUS, LÂMPADAS INCANDESCENTES

Em abril desse ano estive na Euroluce, em Milão. Como não cabe nessa página tudo o que vi por lá, falarei apenas da lâmpada incandescente, que tem dia e hora para deixar de existir. Muitos governos decidiram criminalizar a produção desse artefato que no século 19 surgiu como uma solução tecnológica impressionante, já que nossos bisavós não acordariam mais com as narinas enegrecidas e sem o cheiro do querosene impregnado nas roupas, nos cabelos, no ar. A lâmpada incandescente, que antes era um milagre tecnológico para a iluminação artificial, hoje é considerada ineficiente, pois apenas 5% da energia envolvida se converte em luz, enquanto 95% é desperdício, é calor.

Em 2009, eu estava numa sala com vários professores e profissionais da iluminação na Master School, em São Paulo, e todos falavam da extinção da lâmpada incandescente. Todos concordavam com essa decisão e citavam o mesmo argumento sob o ponto de vista da eficiência energética, exceto um austríaco radicado em São Paulo, que falou: "lá na Finlândia, onde faz dezenas de graus abaixo de zero, ela é muito eficiente, pois ilumina e esquenta".

Voltando a falar da Euroluce, vi um estande com uma homenagem feita pelo designer de luminária alemão Ingo Maurer, que numa palestra que fez assumiu a sua paixão pelas incandescentes. Ele teve a ideia de desenhar e fixar algumas asas ao redor de lâmpadas deste tipo. Dá para interpretar sua intenção: a lâmpada incandescente é uma espécie de anjo, uma criatura iluminada que deve ir para o céu, por tudo o que fez pela iluminação nas ruas e nas casas nos séculos 19 e 20 (e 21), pelos espaços e superfícies que sua luz tocou.

Encerro esse bate-papo com a lembrança de outras formas de como a luz toca no espaço, nas superfícies, nos objetos, na vida:

1) A fotossíntese, que significa que a planta produz seu próprio alimento ao ser tocada pela luz.

2) A descarga elétrica que rasga a atmosfera na forma de um raio em seu clarão azulado com 27 mil graus Celsius.

3) O laserpoint usado em palestras.

4) A luz azul usada pelos dentistas para endurecer rapidamente a resina aplicada sobre um dente.

5) A luz invisível de um raio X que toca as partes internas de nosso corpo.

6) A luz do laser que faz tocar um CD e um DVD.

7) A luz do sol, que, ao tocar as moléculas d'água em suspensão, dá origem a um arco-íris;

8) A luz que atravessa as lentes dos óculos para aprimorar o foco de nossa visão.

9) A luz que sensibiliza a película de um filme no interior de uma câmera.

10) A luz que atinge nossa retina.

11) A luz da iluminação cênica, que brinca com nossa memória, estimula nosso mundo imaginário, toca nossa emoção.

Farlley Derze é professor do Instituto de Pós-Graduação, diretor de Gestão e Pesquisa da empresa Jamile Tormann Iluminação Cênica e Arquitetural e membro do Núcleo de Estética e Semiótica da UnB. Doutorando em Arquitetura. E-mail: diretoria@jamiletormann.com

 
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