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Edição #152
março de 2012
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Iluminando: ARTE E CIÊNCIA
O sabor da luz
por Farlley Derze 11/03/2012
A letra da música de Chico Buarque começa assim: "a novidade que tem no Brejo da Cruz é a criançada se alimentar de luz". E a música termina com a frase "que eram crianças e que comiam luz". O nome da música é Brejo da Cruz. Comer luz foi a frase que ficou ressoando na minha mente e me provocou a imaginação. Imaginei crianças que, comendo luz de boca aberta, deixavam escapar flashes e se lambuzavam de azul, amarelo, verde, vermelho... Delícias luminosas mastigadas com alegria.

Quando li o livro Doze Contos Peregrinos, do colombiano Gabriel García Márquez, encontrei um conto chamado A luz é como água. É a história de Totó, um menino de nove anos, e de seu irmão Joel, de sete. Numa quarta-feira, seus pais foram ao cinema e os meninos quebraram a lâmpada acesa de um lustre da sala. Um jorro de luz dourada e fresca feito água começou a sair da lâmpada quebrada. A enchente de luz atingiu a altura de quatro palmos, quando então os irmãos desligaram a energia, pegaram um barco que ganharam de presente dos pais e flutuaram pela casa inundada de luz. Imagino os dois irmãos a remar dentro de casa, a colher com as mãos um gole da água durante o passeio.

Qual seria o sabor da luz que jorrou da lâmpada feito água ou da luz que serve de alimento às crianças do Brejo da Cruz? Em 2005, acadêmicos de Harvard conseguiram congelar a luz. Uáu... Quando li a matéria, a primeira imagem que me veio à mente foi a de um copo com água e "cubos de luz congelada" a cintilar dentro dele. A música de Chico Buarque, o conto de Gabriel García Márquez e os cientistas de Harvard iluminam nossa imaginação.

METÁFORA DO SABOR

Em abril de 2011, estive na Euroluce, uma feira internacional que ocorreu em Milão, Itália. Novas tecnologias dialogavam com designs tradicionais ou contemporâneos de luminárias, de bulbos, de efeitos... Andar pela feira era ouvir uma sinfonia de luzes a ecoar nos espaços. No terceiro dia de visita, me deparei com um estande onde várias pessoas se amontoavam diante de alguma coisa. Todos usavam suas máquinas fotográficas e disparavam cliques de vários ângulos numa mesma direção. Ao me aproximar, vi que era um quadro com moldura clássica, e em vez de uma suposta Monalisa, havia uma garrafa de Coca-Cola cheia de água e um LED fixado na tampa a brilhar no interior da garrafa. O nome da obra era "Coca Light". Fiz várias fotos daquela metáfora do sabor.



UM CONTO - NO SÉCULO 58

Ezred é o nome do imperador da galáxia de Nnamrot no ano de 5701. Duas naves imperiais avançam lentamente governadas pelos comandantes Sacul e Ordep, que, juntos, nunca perderam uma batalha no espaço sideral. Ambos já foram gravemente feridos e chegaram a ser reanimados, mas não com descargas elétricas como se fazia no século 21, e sim com cápsulas de luz. As cápsulas de luz só podiam ser usadas sob ordem do imperador para guerreiros em estado de morte declarada. Desde a invenção das cápsulas, no século 53, uma onda de crimes passou a ameaçar a estabilidade do império, e, consequentemente, de toda a galáxia de Nnamrot. O motivo da rede de crimes era um só: o contrabando das cápsulas de luz, porque uma vez ingerida, representava 100 anos a mais de vida em estado de juventude imutável.

Cinco séculos após a invenção desta "fonte de eternidade", portanto, no século 58, o imperador Ezred descobriu que um dos planetas da galáxia se encontrava povoado de jovens eternos que acumulavam experiência de guerra e experiência política há pelo menos 300 anos. Eram todos liderados por Nosreme, que, a essa altura, planejava um levante contra o imperador. As naves de Sacul e Ordep avançavam para conter o levante. Esses dois comandantes, fiéis ao imperador, tinham 400 anos cada um, ressuscitados de outras mortes pelas cápsulas de luz. A missão de ambos era capturar o líder do levante, o engenheiro Nosreme, inventor das cápsulas de luz para a vida eterna.

Nosreme planejava o ataque porque não se conformava com a perda de sua mulher Ailiram e de sua filha Arodasi, resultado de o imperador Ezred não ter autorizado o uso das cápsulas para ressuscitá-las após morrerem definitivamente pelo envelhecimento. Desolado, Nosreme planejou lentamente a formação de um "exército de jovens eternos" (EJE), todos munidos de conhecimento geocósmico, biomecatrônica e eletroluminoquímica, portanto, prontos a se ajudarem mutuamente em caso de morte. Bastava colocar uma cápsula de luz sob a língua do companheiro morto. A cápsula, ao derreter, durante 14 segundos libera a luz que penetra na circulação sanguínea. Os fótons se ligam magneticamente aos aminoácidos e reprogramam eletronicamente a estrutura de cada célula do corpo, de cada proteína, de modo que mais 100 anos de estabilidade juvenil se configure, com o descarte gradual de células antigas, pouco a pouco substituídas por novas matrizes celulares.

Havia outro motivo para que Sacul e Ordep capturassem Nosreme no planeta que servia de sede de seu exército. O imperador Ezred só tinha mais uma cápsula de luz, e apenas Nosreme, o engenheiro inventor, poderia ensinar a fórmula e reativar o antigo laboratório controlado pelo imperador. Portanto, Nosreme precisava ser capturado vivo. Nosreme morto era sinônimo de uma vida humana inferior a 115 anos, como era no século 22. Ninguém conhecia o sabor da luz daquelas cápsulas, visto que só podiam ser usadas para ressuscitar um morto, que, ao reviver, não sentia nenhum gosto específico, uma vez que a cápsula já havia se derretido em luz. Tragá-las em vida desestabilizava o sistema eletroluminoquímico e em poucos minutos se morria "intoxicado" de luz, sem chance de ressuscitação, sem tempo para se dizer qual o sabor daquela luz.

Às 27h40min, as duas naves imperiais pousam no planeta onde vive Nosreme. Só a diplomacia de Sacul e Ordep pode evitar a tragédia de uma guerra entre dois poderosos exércitos com armas de alto poder de destruição e preservar a vida de Nosreme, o único a possuir a fórmula, cuja morte deixa suspensa a experiência da eternidade humana. Nosreme recebe em seu gabinete os comandantes Sacul e Ordep. A porta se fecha magneticamente. Resta-nos aguardar o desfecho dessa negociação.



A CULINÁRIA TECNOLÓGICA E ARTÍSTICA

Enquanto não chega o século 58, aqui na Terra, e com o século 21 a todo vapor, uma grande experiência de sabor que a luz nos dá vem da culinária tecnológica e artística, que exala aromas pelas mãos dos profissionais da iluminação cênica. Tanto eles quanto o público saboreiam o modo como a luz dialoga com os textos teatrais, gesticula com os movimentos da dança, ganha ritmo com os acordes sonoros high tech dos shows de música e sussurra segredos na sombra chinesa, só para citar alguns exemplos. A plasticidade das cores e dos movimentos de luz que estruturam técnica e esteticamente a linguagem da iluminação cênica parece ter exercido influência sobre profissionais de outras áreas, como arquitetos e engenheiros, que descobriram formas de lidar com a luz no meio urbano, nas fachadas arquitetônicas, nas pontes ou monumentos históricos e contemporâneos.

No cardápio atual de ingredientes, como luz, espaço, formas e superfícies, a iluminação cênica nos apresenta como o "prato do dia" as projeções conhecidas como vídeo-mappings. Edifícios tornam-se o "ciclorama da cidade". Valoriza-se a arquitetura na cidade noturna. Ganha o público porque desfruta de um prazer. Ganha o município porque a luz, as cores e os movimentos transformam edificações e vias públicas em cenários urbanos que atraem turistas com suas máquinas fotográficas cujas fotos irão atrair futuros turistas, e tem-se uma economia movimentada. É uma oportunidade para investimentos em infraestrutura cultural, tecnológica e hoteleira.

A iluminação cênica, esta ave que flutua pelas asas da ciência e da arte, convida a jantar na mesma mesa os iluminadores, arquitetos, engenheiros, diretores de teatro, cenógrafos, técnicos de luz, eletricistas, VJs, professores de iluminação e pesquisadores, para que dialoguem em rede e compartilhem seus planos, projetos, realizações e experiências.

Cada um contribui com suas cápsulas de luz para dar sabor visual aos espaços internos e externos do mundo heterogêneo em que vivemos.

Cada profissional é um pedaço de eternidade.

Farlley Derze é professor do Instituto de Pós-Graduação, diretor de Gestão e Pesquisa da empresa Jamile Tormann Iluminação Cênica e Arquitetural e membro do Núcleo de Estética e Semiótica da
UnB. Doutorando em Arquitetura.
E-mail: diretoria@jamiletormann.com

 
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