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Edição #147
outubro de 2011
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capa: Kabadio pelas lentes de Daniel Leite
Diretor de fotografia carioca mergulha fundo em projeto multifacetado
por Rodrigo Sabatinelli 19/10/2011
foto: Daniel Leite
Kabadio, Senegal. Um grande espelho da alma, de onde sopram ventos que se pode tocar; de onde se sente o pisar da terra seca a alguns quilômetros do mar e se escuta os risos de crianças iluminadas e curiosas, que só transmitem esperança e prosperidade aos que conseguem se aproximar.

No coração da Casamance, interior do Senegal, o vilarejo tradicional muçulmano se apresenta como uma espécie de ilha mística protegida pelo Islã e seus chefes religiosos chamados Marabous.

Em meio a uma guerra civil entre as forças do governo e o Movimento de Força Democrática da Casamance (MFDC), Kabadio também vive a realidade dos contrabandistas que fazem o trânsito clandestino de mercadorias entre as fronteiras da Gâmbia, Casamance e Guinée Bissau.

Foi lá onde, há alguns anos, o fotógrafo, diretor de fotografia da TV Globo e cineasta independente Daniel Leite se encontrou. Com suas lentes, o então estudante de cinema de Lyon, na França, registrou de maneira encantadora e surpreendente o vilarejo de pescadores.

O resultado, conquistado em duas viagens - uma terceira expedição está marcada para o início de 2012 -, está em plena fase de produção, e, em breve, se transformará em um documentário, um livro e uma exposição.

Os detalhes técnicos sobre o projeto - aprovado na Lei Rouanet e atualmente na fase de prospecção para sua conclusão, possivelmente no ano que vem - o diretor nos conta com exclusividade nas próximas páginas.
DESBRAVANDO E RETRATANDO KABADIO

Daniel foi a Kabadio pela primeira vez no segundo semestre de 2006. Pegou um avião com dois amigos em Lyon e foi até Dacar, capital de Senegal, de onde seguiu pelas perigosas estradas da região até chegar a Casamance.

A viagem, financiada pela Université Lumière Lyon II e pelo Crous, uma organização que bancava projetos estudantis locais, tinha como objetivo promover uma ação humanitária para a ONG francesa IEFR e colher material para a realização de um pequeno documentário e uma exposição de fotos.

O diretor e os amigos passaram lá cerca de 30 dias. Em suas bagagens, duas câmeras Super 8mm, sendo uma para standby, 25 bobinas de três minutos, uma câmera fotográfica Nikon F90 munida de lentes claras (1.6) e uma Hasselblad 503cx. "Tamanha variedade de formatos", Daniel explica, "visava, acima de tudo, experimentar e partir em descoberta da 'janela' ideal para o projeto".

Durante o período em que explorou o local, Daniel se voltou para o registro de imagens que ilustrariam a exposição fotográfica, deixando a Super 8mm a cargo de um de seus companheiros. No entanto, vez ou outra, pegava a câmera para fazer algumas tomadas.

"A exposição era o eixo principal da viagem e o documentário era algo complementar. Por isso, me concentrei em fotografar, mas, vez ou outra, fazia alguns registros com a Super 8mm", diz ele, lembrando que o fato de ter poucas bobinas à sua disposição foi algo que, de certa forma, limitou a possibilidade de registros, visto que lá em Kabadio seria impossível adquirir novos negativos.

"Tivemos que selecionar bem os motivos e os momentos em que rodaríamos algo, o que, de fato, ancorou a escrita do projeto a algo extremamente decupado, nos distanciando do que existe de mais importante em Kabadio: a naturalidade e o frescor daqueles olhares. Aquele estudo exaustivo de mise-en-scène que queríamos impor era em função do formato de filmagem ao qual tivemos acesso naquela época. Fazendo dessa primeira temporada um belo exercício de pesquisa ao tema e uma excelente primeira inserção na cultura local", diz.

Como não conhecia o vilarejo e dispunha de poucos recursos, o diretor e seus amigos decidiram finalizar a escrita na primeira semana de estadia em Kabadio. "Sabíamos que não havia luz elétrica, portanto, preparamos uma 'escrita' diurna para a realização do documentário", explica. "Como a latitude da câmera era baixa e toda a luz disponível era natural, não tivemos outra saída a não ser registrar tudo em externa dia", completa.

O diretor ainda revela que, em Kabadio, foi preciso ter muito cuidado para não invadir o tempo e o espaço dos habitantes locais. De acordo com o próprio, trata-se de um povo socialmente diferente do nosso. E, diante dele, não é possível impor qualquer necessidade de produção.

"Temos que, acima de tudo, saber captar os momentos sem invadi-los, afinal de contas, o dia a dia na região é movido a cultos religiosos e particularidades que devem ser sempre preservados. Lá, cada retrato é um encontro, e encontros têm de ser naturais. Se não tivéssemos respeito, certamente, produziríamos muito mais, mas isso [atrapalhá-los] não nos interessava", explica.

Além das fotos e do material captado em Super 8mm, Daniel e seus amigos registraram em Kabadio um rico material sonoro. Gravado por microfones profissionais estéreos ligados a um aparelho MD, o material acabou se transformando em uma instalação sonora, que, assim como a exposição fotográfica e o documentário, deu início a um projeto mais ambicioso, dessa vez, capitaneado somente pelo fotógrafo.

"Essa nossa primeira ida a Kabadio abriu portas para uma segunda visita, que aconteceria somente neste ano [2011]. Até então, tudo o que havíamos feito foi visando o universo social acadêmico na França. Mas, particularmente, eu sabia que estava diante de um grande tema e que aquela cultura era pouco conhecida do ocidente e que não havia nenhuma grande representação artística ocidental. E foi justamente isso que me motivou a voltar lá", diz.
 
DE VOLTA A KABADIO COM UMA DSLR E NOVOS PLANOS

Rio de Janeiro, Brasil, Janeiro de 2011. Cinco anos depois de sua primeira ida à Kabadio, Daniel retornaria àquela terra. Terra que o motivara a investir toda a sua reserva financeira na compra de passagens aéreas e de equipamentos como uma câmera digital Canon 5D, lentes Carl Zeiss e um gravador de som portátil, entre outros assessórios.

Ao contrário do que tinha em mente em sua primeira ida ao Senegal, dessa vez, o diretor estava com planos, digamos, mais ambiciosos. "Voltei de Kabadio para a França sem a sensação do dever cumprido, sabe? Fiz fotos maravilhosas, mas gostaria de ter registrado imagens em Super 8mm do meu jeito. Infelizmente, lá, não tive essa oportunidade, então concluí que uma nova viagem seria mais que necessária", explica.
Em sua segunda ida, Daniel não teve a companhia dos amigos com os quais anos antes desbravou o local. Mas, ainda com o intuito humanitário da IEFR e o apoio logístico e político de Benjamin Jayr - presidente da ONG -, de Lucille Lejczyk e dos assistentes locais Alliune e Brama, o diretor conseguiu registrar tudo em foto, vídeo e som.

Por instinto, ao chegar à terra, ele tentou rever pessoas e locais que não teve a oportunidade de filmar na ocasião, quando estava concentrado apenas em fotografar o local. "Depois de tentar reencontrar aquelas mesmas 'pistas', entendi que deveria focar no que não havia sido explorado anteriormente. A partir daí, a coisa fluiu e eu, realmente, pude registrar um material único, nunca visto até então", diz.

Daniel descobriu um novo Kabadio e teve acesso a rituais importantes. De acordo com ele, isso se deu pelo fato de ter conhecido melhor aquela cultura, aquelas pessoas e seus principais representantes. "Estar ali, mais uma vez, mostrando resultados e explicando todo o processo que estou fazendo, foi um voto de confiança importante", comemora.

Horas no tripé e em alguns momentos com a câmera no ombro, Daniel se deixava guiar pelo interesse ao que acontecia em sua frente. "Em determinado momento, no ritual do fogo Talibé, ficou óbvio que a câmera deveria ganhar a roda e entrar naquele transe produzido pela música árabe e pelos tambores senegaleses. Ali, uma subjetiva de um Talibé (aprendiz do Alcorão) nos transporta, sem dúvidas, a outra realidade", lembra.

Na 5D, Daniel usava lentes como a 25mm, que, segundo ele, "têm boa profundidade de campo e oferece ao espectador a sensação de transparência aos temas, aumentando, com isso, a verdade daquelas imagens". Já os depoimentos dos locais, feitos em caráter de retrato, foram registrados com uma 50mm e uma 85mm.

Assim como da primeira vez em que esteve em Kabadio, Daniel não contou com nenhum tipo de refletor para iluminar as cenas. Em uma delas, ele utilizou apenas uma lanterna improvisada.

TEASER PARA PROSPECTAR PATROCINADORES

A segunda ida a Kabadio foi, de fato, bastante produtiva para Daniel, que retornou ao Brasil com imagens belíssimas da região. E tão logo chegou, o diretor já convocou o amigo Leandro Rial, montador e também diretor, para montar o teaser de seu projeto.

De acordo com Daniel, que desde os tempos da faculdade de comunicação realiza trabalhos ao lado de Rial, era de extrema importância a participação de um profissional que entendesse o projeto como um todo e tivesse a capacidade de sintetizar em poucos minutos o que de melhor havia nele em termos de informação visual.

"Desde sempre pensei no Rial como o responsável pela montagem não somente do teaser, mas de todo o projeto. Ele tem uma sensibilidade incrível para dar sentido ao grande 'rascunho' que é a minha cabeça. E, embora montador, é um excelente esteta, capaz de acrescentar contemporaneidade e profundidade às imagens do projeto. O convidei, ainda, para escrever o roteiro do projeto comigo", diz.
O teaser montado por Rial já tem dado o que falar. Foi por meio dele que diversos veículos de comunicação se interessaram pelo projeto e convidaram Daniel para falar a respeito dele. Jornais como O Globo e rádios como a CBN são somente alguns dos exemplos. O objetivo, agora, é despertar o interesse de grandes investidores, capazes de financiar a tão sonhada terceira ida do diretor a Kabadio. O teaser está no site do projeto: www.projetokabadio.com.

"Quero voltar. E quero que seja logo no início de 2012. Temos o projeto aprovado em lei e estamos tentando patrocínio para torná-lo ainda mais interessante. Se for possível, da próxima vez, faremos tudo como tem de ser, com equipamentos de grande porte, como travellings, câmeras como a Sony F3 e as Compact Primes. Enfim, com tudo o que temos direito", diz.

Uma maior equipe, contendo um primeiro assistente de câmera, um captador de som, um jornalista e um profissional responsável por alimentar um blog também faz parte dos planos de Daniel, que pretende conservar o esquema guerrilha (nomenclatura dada a formas improvisadas de se gravar), porém, dessa vez, no que se trata ao ritmo das gravações, e não aos recursos técnicos.

"Seria perfeito! Temos que mostrar Kabadio por meio de tomadas aéreas, mostrar a beleza ímpar daquele lugar. Minha ideia é passar dois meses gravando, gerando material fotográfico e sonoro. Afinal de contas, parte da arrecadação do projeto será reinvestida na cultura local por intermédio da IEFR", diz.

Se depender da vontade de Daniel, o Projeto Kabadio não terá um fim após a finalização do longa. Para o diretor, a necessidade de retribuir o carinho dos habitantes locais, que chegaram a dar seu nome à primeira sala de cinema da região - uma tenda onde um projetor exibe imagens numa parede -, é uma de suas premissas básicas.

"Aqui, no Brasil, nosso plano é financiar a edição do livro, a produção do documentário e a exposição para termos autonomia no percentual de todas as vendas, já que, no caso do livro, normalmente os autores ficam com cerca de 11%, deixando a maior parcela para as editoras", diz. "No término do projeto, teremos um site que vai gerenciar todo o nosso acervo. Tudo isso porque tenho um grande sonho: conseguir fazer com que a minha arte ajude as pessoas. Daí, sim, tudo fará sentido. Será a arte a serviço do humanitarismo. Quando isso acontecer, estarei realizado não apenas como artista, mas, sobretudo, como ser humano", encerra.
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