Luz & Cena
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Edição #133
agosto de 2010
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Capa: Eu queria ser o Mick Jagger!
Césio Lima
por Rodrigo Sabatinelli 12/08/2010
A vontade de fazer um entrevistão com Césio Lima, dono da locadora LPL, era grande. E a dificuldade de encontrá-lo com tempo para um longo papo, maior ainda. Tudo bem, a gente não esperava que a vida de um dos maiores lighting designers e diretores de fotografia do país fosse fácil e, por isso, ficou no pé dele até conseguir.

Na verdade, para que pudéssemos finalizar o bate-papo com este paulista de Santos - um verdadeiro personagem, cá entre nós! - foram necessários alguns encontros. E, a cada vez, avançávamos um pouquinho.

Nossa entrevista começa com Césio falando de quando entrou para o hóquei do Palmeiras, nos idos anos 70, antes mesmo de se enveredar pelo mundo da iluminação, e termina com o próprio prevendo seu futuro. Parar de trabalhar? Ele diz que, vez ou outra, isso lhe passa pela cabeça. Mas o amor pela "coisa" - como chama o trabalho - e o desejo de uma vida confortável não lhe permitiriam "tanto".

Além disso, o bom contrato que tem com a Rede Globo, para qual também empresta sua arte, deve lhe segurar na ativa por algum tempo. "Ela toma o meu tempo pra caramba, no bom sentido, claro", diz, entre as incontáveis chamadas recebidas no celular.

De tanto que conversamos, poderíamos nos estender por linhas e linhas, lembrando ainda os trabalhos na fábrica de canhões Torlay e na locadora paulista Somlux, a estreia na estrada com a cantora Simone, as farras nos camarins de Caetano Veloso, a sociedade com Nelson Martini e Luis Auricchio, as turnês com Moraes Moreira, Roberto Carlos, etc. Mas sabemos que, no fundo, ninguém melhor que a própria "figura" para contar um pouco de sua tão movimentada trajetória.

Com vocês, Césio Lima! O "cara" que queria ser Mick Jagger e acabou se tornando um dos maiores profissionais da iluminação do Brasil!

É verdade que muito antes de sonhar em ser iluminador você era patinador?

Pois é, eu praticava hóquei sobre patins no [Sociedade Esportiva] Palmeiras (risos). Fazia isso porque não tinha dinheiro pra me associar ao clube, que, naquela época, era frequentado pelos meus grandes amigos Nelsinho [Nelson Martini, iluminador] - que, tempos depois, foi meu sócio - e Auricchio [Luis, também iluminador], meu sócio na LPL. Daí, como atleta do clube, tinha passe livre pra entrar e sair quando quisesse, sem ter que correr o risco de ser pego pulando o muro (mais risos).

Mas como passou de patinador a iluminador?

Lá mesmo dentro do Palmeiras. Havia um espetáculo chamado Periquitos em revista, que era realizado com a participação de um grupo de atletas. Eu e Nelsinho começamos a ajudar na montagem da iluminação e acabamos operando canhões nele. O Marcio Barreto [iluminador] também começou lá, no som. Até que, num belo dia, substituí o iluminador que estava doente. Eu já conhecia bem o show e achei que poderia fazê-lo com tranquilidade. Aquela foi, efetivamente, a minha primeira experiência diante de uma mesa de luz. No fundo, eu e o Nelsinho estávamos lá pra pegar a mulherada, as patinadoras lindíssimas, maravilhosas, que circulavam pelo clube.

Qual foi seu primeiro emprego no ramo de iluminação?

Foi numa fábrica de canhões, a Torlay. Trabalhei um tempo montando equipamentos lá, até que fui chamado pra trabalhar na Somlux, empresa dos irmãos Sacomani [Emilio e Zé], que era referência em locação de luz no Brasil. O Emilio, naquela época, era iluminador do Roberto Carlos. Eu, com 15 anos de idade, fazia de tudo pra ele, de varrer o depósito a montar e reparar equipamentos danificados.

E quando caiu na estrada com um artista pela primeira vez?

Com um ano de empresa, fui convidado pra outro trabalho: operar a luz da Simone. O Davi, iluminador dela, havia se acidentado e precisavam de alguém pra substituí-lo. Lá fui eu de novo. A direção do show era do Fernando Pinto [conceituado carnavalesco], com quem passei uma tarde estudando as luzes antes de, de fato, operá-las. Juntos, lemos o roteiro das músicas e, de cara, entendi o que era pra fazer. Na época, os iluminadores roteirizavam o espetáculo, então era tranquilo substituir alguém. Era só seguir a receitinha de bolo. Por conta do acidente do Davi, acabei ficando duas semanas no Teatro Pixinguinha (SP) com a Simone.

E o que fez após o retorno dele?

Bom, aí, logo depois, pintou a chance de fazer o Caetano [Veloso], que era uma outra gig, outro tipo de luz, mais livre que a da Simone. Aquela, inclusive, foi uma das melhores turnês da minha vida. Era a estreia do show Muito e eu, realmente, me descobria como iluminador. O único problema era que eu era menor de idade, então precisava viajar com autorização do Juizado de Menores. Aliás, naquela época, em um espetáculo chamado Sabor bem Brasil, o Caçulinha [pianista] chegou a se passar por meu pai pra aliviar a minha barra com os caras (risos).

Dizem que as turnês do Caetano eram uma verdadeira farra...

Rapaz, a gente arrepiava, mas, quando a mulherada chegava, tinha que respeitar a hierarquia artística. Primeiro os músicos, depois nós, os técnicos (risos). E os caras não aliviavam. A gente tinha que se virar. O Caetano era o primeiro a escolher. Depois vinha o Arnaldo [Brandão, baixista] e o resto do time. Eu ficava na sobra, mas não dava bobeira. Chegava junto nas escolhas. A grande verdade é que o iluminador é uma espécie de artista frustrado. No fundo, o que ele queria era estar na frente do palco, cantando e ouvindo as mulheres chamarem seu nome. Mas como nem todo mundo tem esse talento...

Tudo bem, não preciso ser radical. É claro que, quando abrem as cortinas e o artista entra em cena, quem está fazendo a luz acaba sendo parte do show, pois ela tem o poder de dinamizar, de mudar o curso do espetáculo. Tem cara que nasceu pra isso, pra ser iluminador. Eu não. Eu queria ser o Mick Jagger! Como não deu, fui fazer luz (mais risos).

E quando nasceu a Lúcifer, sua primeira empresa de iluminação?

Eu fazia a Simone e o Caetano, até que decidi me juntar ao Nelsinho e ao Auricchio pra montar a firma. Usávamos os fundos da casa do Auricchio pra consertar refletores e arrumar outros equipamentos. Juntos, compramos nossas primeiras lâmpadas PAR de 500 Watts.

Eu já tinha 18 anos e vivia pra cima e pra baixo com diversos artistas. De Moraes [Moreira] a Alceu [Valença], passando pela Cor do Som, por Zé Ramalho e Amelinha, Pepeu [Gomes] e Baby Consuelo, Fafá [de Belém]... E, com o volume de trabalho, a gente passou a ter dificuldade até de se encontrar. Eu descia [o país] com o Moraes, enquanto o Nelsinho subia com o Alceu. E assim fomos levando a empresa.

Você pegou a melhor fase do Moraes, não foi?

Sim, o Moraes estava totalmente "estourado". Chegou uma época em que ele tinha quatro músicas tocando em novela. Uma com a Gal, outra com o Ney. Por isso, não parava de fazer shows. Ficamos na estrada por uns quatro anos, até que fui parar na equipe do Milton [Nascimento], com quem rodei o mundo em turnês alucinantes. Passamos por Japão, China e todo o Leste europeu bebendo whisky (risos). Eu, o "Vitão" do PA e o Ivo do monitor. Com essa galera, a conta dos quartos de hotéis chegava a U$S 1.200 (risos). Não era mole, não.



Como você fazia para se dividir entre as vidas de iluminador e empresário?


Eu era muito moleque, né? Era roqueiro, vivia na Pompeia [bairro de São Paulo], só queria saber de me drogar e virar a noite no meio de um monte de mulher, sem ter que acordar cedo no dia seguinte pra trabalhar. Mas aquela farra não ia durar pra sempre e, se não me engano, a primeira grande mudança pela qual passamos foi a troca do nome da empresa. Tudo bem, Lúcifer pode parecer coisa de satanista, mas, em latim, significa "fazer luz". O problema é que começamos a fazer convenções empresariais e esse nome nos atrapalhava, comercialmente falando, sabe?

O próprio Roberto Carlos disse que não trabalharia com a gente enquanto não mudássemos o nome da firma (risos). Ele dizia que, se mudássemos, as coisas iriam melhorar pro nosso lado. E, coincidência ou não, melhoraram mesmo. Foi aí que surgiu a Lighting Productions LTDA, ou LPL.

E não foi difícil trocar o nome?

Antes mesmo de virar LPL, a Lúcifer já era uma empresa grande, e isso nos dava alguma segurança, pois éramos muito conhecidos no mercado. Naquela época, fazíamos shows internacionais de grande porte, como do Jean Luc Ponty e do Kiss. O Kiss, inclusive, a gente fez em parceria com a Aurolights, do Auro [Soderi Jr, iluminador], que foi empresário dos Mutantes e é do rock como eu. Lembro que foi um show com uma quantidade absurda de lâmpadas PAR. Algo entre 500 e 600.

Mas com a mudança de nome, o Roberto Carlos topou trabalhar com você, né?



É, o Roberto não era nada favorável a esse nome (risos). Lembro do dia em que o Dody Sirena [empresário] me convidou pra fazer a luz dele. Eles tinham acabado de demitir o Emilio e queriam que eu o substituísse. Mas ia ser sacanagem aceitar sem consultá-lo. Jamais faria isso. O cara [Emilio] tinha sido meu patrão, era gente boa comigo e eu não podia vacilar. Então, liguei pro Emilio, expliquei a situação e ele disse que eu poderia entrar sem problema algum. E foi ótimo fazer parte da gig depois de receber a benção dele.

Você acha que o mercado de locação no Brasil, hoje, tem suporte para atender ao grande volume de shows realizados no país?

Sem dúvida. Atualmente, temos grandes empresas em todas as regiões. Antigamente, era bem mais complicado. Um cara do Nordeste não conseguia dar conta da demanda local e tinha que recorrer ao povo do Sudeste. Hoje, há bandas que viajam o Brasil inteiro e são atendidas por onde passam. Elas montam o rider, viajam com uma mesa, seis moving lights e se viram muito bem. Poucos artistas viajam com o rider completo. Roberto Carlos, Lulu Santos, Capital Inicial e Jota Quest são alguns dos poucos que têm esse privilégio.

Voltando um pouco no tempo, em 86, você chegou a operar os canhões do Hollywood Rock, não foi?

Na verdade, eu era coordenador dos operadores. Eles tinham dificuldade de operar os canhões do festival, que, na ocasião, usavam carvão. Eu estava ali pra auxiliá-los. Foi uma loucura. Lembro que o Bob Bassy - que até hoje cuida dos canhões dos [Rolling] Stones - ficava correndo de uma torre pra outra para trocar os carvões. Então, montei uma equipe de operadores que sabia operar os Super Trouper, lendários canhões seguidores.

No ano seguinte, quando o Patrick Woodroffe assumiu a luz do festival, a gente conversou e deixou pré-acordado que eu forneceria os equipamentos pra edição seguinte. Então, em 88, eu fiz o Hollywood Rock de São Paulo como locador e a Companhia [da Luz] cuidou do festival no Rio.

Quando e como você entrou para a Rede Globo?

Durante a pré-produção do Rock in Rio II, no final de 1990, cuidei da contratação da equipe que iria operar os canhões do festival. Lá, conheci Danny Nolan, que começava a fazer trabalhos no Brasil, comecei a me enturmar com o Talma [Roberto, diretor da TV Globo], com o Peter [Gasper, lighting designer], com o Legey [Aloysio, diretor de shows da TV Globo], o Luis Paulo "Neném", o Henrique Leiner... Eu já tinha parado de operar luz na estrada, mas fazia um ou outro projeto fora dela. Depois do Rock in Rio, o Talma e o Legey começaram a me chamar pra fazer diversos trabalhos com eles e eu caí dentro. Com o tempo, lá por 1997, pintou o interesse da Globo em me contratar. Eles me fizeram uma proposta, me pediram exclusividade e eu topei.

E como foi o trânsito da iluminação de shows para a direção de fotografia?

Tudo o que aprendi sobre direção de fotografia foi na Globo, com a ajuda do meu amigo Luiz Salles, do Sandro Gama, que operava vídeo, e de todos os caras que estavam ali todo dia. Eu tinha noção do que era bonito, do que era interessante em termos de luz num show, mas não sabia nada como as câmeras faziam a leitura das temperaturas de cor, etc. Tinha que perguntar o porquê de tudo. Afinal de contas, até então, minha relação era direta com o palco, e, de repente, passou a ter outro elemento entre nós, que era a câmera, o que muda tudo.

No início, fiquei meio perdido, mas depois aprendi. Hoje, tenho argumentos suficientes pra discutir com os diretores, com os diretores de imagem, com o pessoal da engenharia. Enfim, com todo mundo que está envolvido no processo de transmissão. Na verdade, eu sempre soube conceituar muito bem. Acho que o meu forte é conciliar todo mundo - artistas, diretores e equipes de engenharia e orçamento - e traduzir isto em um conceito que agrade a todos sem agredir meu gosto pessoal.

Mas você chegou a estudar fotografia em uma universidade no exterior...

Sim. Em 2003, decidi que era hora de me especializar e acabei fazendo o curso de direção de fotografia da University of California, em Los Angeles (UCLA). Fiz mais pra entender a língua dos caras. No final do curso, apresentei ao professor os DVDs acústicos da Cássia [Eller] e do Kid [Abelha], que havia feito aqui no Brasil. Ele gostou tanto que acabou utilizando como material didático numa das aulas. Na explanação, ele falou da carga emocional da iluminação em cada um dos espetáculos e da relação dela com o clima daquelas canções. O curso ajudou muito na minha formação. Afinal de contas, foram seis meses de total imersão no universo hollywoodiano. Mas, pra mim, escola mesmo foi o Estúdio F, do Projac.

E ainda existe aquela velha guerra entre iluminadores e diretores de fotografia, muito comum em grandes festivais com transmissão para TV?

Por incrível que pareça, ainda existe. Mas melhorou bastante. Particularmente, acho o seguinte: se você está iluminando um show e esse show está sendo exibido por uma emissora como a Rede Globo, que tem uma audiência enorme, não tem porque dificultar as coisas. Mesmo assim, tem gente que ainda torce o nariz. Sinceramente, acho que o cara que ilumina um show pro olho humano está ultrapassado, pois, certamente, o artista dele vai fazer um DVD, que é o produto do momento.

Na minha opinião, os iluminadores que se destacam hoje são os que atinaram pra isso. Eles aprenderam a iluminar pra câmera, já que não querem dar lugar a outro profissional na hora da gravação do DVD do seu artista. Eles sabem que, na estrada, no dia a dia, podem ousar mais. Não que no DVD não possam. Mas, nesse caso, é preciso estar atento à captação das imagens. Cada vez menos temos brigas por conta desse assunto. Muito pelo contrário. Hoje, vejo uma interação maior entre os iluminadores e os diretores de fotografia. Mas te confesso que já presenciei muita confusão por aí, viu?

Como e quando os seus sobrinhos entraram de sócios na LPL?

Depois de muito tempo tocando o barco com o Auricchio, atualmente tenho outros três sócios: meus sobrinhos Caio [Bertti, iluminador] e Bruno [Lima, iluminador], e o Rafael [Auricchio, iluminador], sobrinho do Auricchio. Cada um deles tem 16% da empresa, enquanto a gente fica com 26%, cada. Eles compraram seus percentuais de maneira familiar, com trabalho, e, hoje, respondem por mais de 50% do que acontece na firma. Os três, juntos, assumiram muito do que fazíamos. Eu, por exemplo, por muito tempo cuidei dos shows internacionais. Agora, quem cuida é o Caio. Aliás, o Caio já cuida disso muito antes de ser sócio da LPL.

Quem também se meteu a fazer isso foi o Eric Bertti, meu outro sobrinho, que hoje está fazendo a luz do Sepultura, no lugar do Caio, e de outros artistas, como o Angra. Ele fala bem inglês, se dá super bem com os gringos e ajuda muito no trato com os profissionais de fora. Na verdade, há quatro anos não vou a um show internacional pra trabalhar. Quatro anos ou mais.

Mas porque esse afastamento?

A ideia é que, a cada dia, eu me envolva menos. Tenho gostado muito de ficar no meu estúdio, em São Paulo, coordenando as coisas de lá. Montei um esquema que me permite trabalhar com conforto. Tudo automatizado, cara (risos). Então, eu me divirto. Fico com os controles remotos na mão baixando o telão, aumentando o ar, ligando e desligando o monitor... (mais risos).

Claro, tem projetos que não abro mão de fazer e faço de cabo a rabo, sem a participação de ninguém. São os projetos de luz dos shows do Capital [Inicial], por exemplo, que eu adoro. O Capital eu faço desde os tempos da Lúcifer. É um trampo em que coloco a minha mão e faço a minha luz. Na verdade, eu sou um exímio afinador de luz que, hoje, prefere botar alguém pra fazer esse papel. Pode ser que a pessoa não faça tudo do meu jeito, mas, com certeza, vai chegar perto disso. E eu, naturalmente, dou liberdade a quem está trabalhando no meu lugar, mas não deixo de acompanhar pra saber se está tudo ok.

E como é a relação com Caio, Bruno e Rafael?

É maravilhosa! O Auricchio, por exemplo, é um cara muito chatinho (risos), mas que faz trabalhos minuciosos, lindos, com acabamentos perfeitos. Ele é muito cuidadoso e acho que conseguiu passar isso pro Caio e pros demais. O Caio, inclusive, tem uma semelhança profissional muito grande com o Auricchio, assim como o Rafael, que é sobrinho dele, tem comigo. A gente é uma família mesmo.

Os meninos têm um pique danado. São ambiciosos. Gostam de atender a todo mundo, dos pequenos e dos grandes projetos. Viram noite por isso, pelo trabalho, e não querem perder nada, nunca. Estudam a logística do cliente pra não ter que dispensá-lo, sublocam caminhão, equipamento, etc. Eu só fico em cima pra ver se está tudo certo. Mas eles dão conta de tudo sozinhos.

E como andam as parcerias com as outras empresas?

Rapaz, as parcerias evoluíram muito. Hoje, por exemplo, a LPL tem diversos parceiros, como a Novalite, a Oficina [de Luz] e a Sunshine. E essas parcerias sempre são bem vindas. É claro que, em alguns momentos, a gente acaba concorrendo diretamente com eles, mas é uma concorrência saudável. Ninguém detona ninguém, ninguém puxa o tapete de ninguém. Eu, pelo menos, não vejo isso acontecendo.

Apesar de ter equipamento pra atender simultaneamente aos mais diversos tipos de espetáculo, a gente não vive mais sem parceria.  Chega uma hora em que estamos com cinco, seis grandes eventos acontecendo ao mesmo tempo. Imagina você fazer um [Festival] Planeta Terra no mesmo fim de semana em que rolam outros shows de peso, como The Killers, Joss Stone, por exemplo. Não dá! A gente tem que ter consciência de que essa troca de suporte é importante pros dois lados.

Na sua visão empresarial, o que a LPL representa para o mercado de iluminação nacional?

A LPL está muito aquém da organização que gostaríamos de ter. Ainda assim, está muito à frente de outras locadoras do país. O nosso atendimento não é o melhor do mundo, mas é muito bom. Não tenho dúvidas. É óbvio que a gente acaba pisando na bola uma vez ou outra, como todo mundo. No geral, porém, somos super bem aceitos. O problema é que a gente precisa quebrar o mito de que a LPL é uma empresa cara, que só faz projeto grande. Naturalmente, essa imagem se criou por nos verem envolvidos com coisas bacanas o tempo todo. Mas isso é bobagem!

A gente se estruturou pra atender do pequeno cliente - que vai fazer um congresso, um workshop - aos maiores festivais de música. De forma alguma, dispensaria um trabalho pequeno. Começamos nossa história com trabalhos pequenos e tratamos todos da mesma maneira. Inclusive, é nos trabalhos pequenos que a gente faz a nossa "cama", se desafoga.

O que você acha das normas trabalhistas referentes aos profissionais de iluminação?

Não existe uma lei que regularmente a profissão, e as que existem não são boas nem pro empregado nem pro empregador. No Brasil, tem muita proteção trabalhista, o que dificulta a vida das duas partes. Aqui, um operador fajuto de mesa se acha no direito de ganhar o que ganha um baita operador e, pra mim, essa equiparação salarial não deveria existir, pois ela é injusta.

Quem tem mais talento, merece ganhar mais. Se um rigger bom consegue fazer o mesmo trabalho de dois médios, merece ganhar mais. Os especialistas, como o nome já diz, são especiais. Mas, no Brasil, não é assim. A gente acaba sendo nivelado por baixo e isso é uma hipocrisia ferrada. Estamos falando de técnica e arte! Acho que está mais do que na hora de criar regras pra esse tipo de situação. O cara trabalha como rigger há seis meses e quer ganhar o mesmo que um Glauco Cordiolli, que é um especialista no assunto? Como assim?

É verdade que você faz até seguro de vida para os profissionais que trabalham com você?

Sim. É uma garantia pro profissional, que, bem ou mal, corre riscos na estrada, no alto de uma corda, em cima de um palco. Eu faço isso porque não quero aborrecimento. Acho o custo X benefício compensador. Sem contar que, dessa maneira, os profissionais se sentem mais tranquilos. Tem gente que se auto-determina free lancer, trabalha um tempo para uma empresa - que por algum motivo para de chamá-lo - e se sente no direito de botar a firma "no pau". Acho isso uma baita sacanagem, pois, uma vez combinado o cachê, fim de papo. Melhor do que a lei que está aí seria que houvesse uma que aumentasse os cachês, que desse condições de o profissional administrar sua vida como uma pequena empresa, pagando impostos e recebendo benefícios. Eu só cobro dos meus clientes o que combinei previamente com eles. Não dá para "botar no pau" e querer receber mais do que o combinado.

Quais são seus planos para o futuro? Você pretende parar de iluminar e ficar somente cuidando da empresa?

O que eu pretendo é levar a Aninha, minha mulher, e o Antônio, meu filho, pra curtir mais a nossa casa de praia, que fica a duas horas de São Paulo. Todo dia levanto as mãos pro céu e agradeço a Deus pela vida que tenho. Aliás, agradeço a Deus, ao Caio, ao Bruno e ao Rafael (risos). Eles têm pique pra muitas coisas que eu já não conseguiria mais fazer. A real é que a gente vai ficando velho e precisando cada vez mais se cercar de gente de confiança. Hoje, eu tenho a minha turma. Uma galera que cuida muito de mim, das minhas coisinhas, e que me transmite muita segurança.

A gente vive nessa ilusão de que vai se aposentar, de que vai parar. Mas, na verdade, nunca vai largar nada. A paixão pela "coisa" e as crises financeiras não deixam. E eu sei e gosto de me virar. Já aprendi a remar contra a maré, mas espero que não tenhamos mais crises. Pro futuro, só se ouve falar em crescimento econômico e em progresso. A ideia é estar lá pra desfrutar de tudo isso, claro. Só vou parar mesmo quando achar que estou atrapalhando mais que ajudando, mas não sei se isso vai acontecer. Graças a Deus, ainda me chamam muito pra trabalhar.

E, bem cá entre nós, a Aninha é super crítica. Afinal de contas, são 14 anos de MTV. Num clima super cool (risos), ela acha a maioria dos meus trabalhos caretas. De cada dez, gosta de um. Por isso é que eu trabalho tanto. Tenho que fazer cem shows pra receber dez elogios da minha amada (mais risos).

E além da empresa, você ainda tem a Globo...

Pois é, não tem como abrir mão disso. Ela toma o meu tempo pra caramba, no bom sentido, claro. Então, se eu puder fazer o que faço lá, mais um ou outro DVD por ano, já estou feliz. Tenho sempre um five years plan, sabe? Eu e o Patrick [Woodroffe, lighting designer]. A gente combinou de parar aos 45 anos (risos). Esse plano surgiu aos 40 e, quando chegamos perto do limite, me vi trabalhando bem mais que antes. Agora estou chegando aos 50 e trabalhando mais ainda (mais risos). No fundo, essa é a verdadeira graça da vida: trabalhar. De preferência, se divertindo muito!
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