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Revista Luz & Cena
Tecnologia e Arte - Miguel Ratton
Opiniões, ideias e novidades sobre tecnologia, música e áudio
Postado por Miguel Ratton em 30/4/2012 às 11:13
M.Ratton
Nada como o original (M.Ratton)
Nada como o original
Comprei um Yamaha DX7 em 1986, através do amigo de um amigo que gentilmente o trouxe da Europa. Naquela época, comprar um sintetizador era bastante complicado, porque as importações eram muito dificultadas e o dólar extremamente caro. Assim que recebi o instrumento, foram noites e noites me deliciando com as novas sonoridades que a síntese FM era capaz de produzir.

Durante mais de uma década, usei e abusei daquele tanque de guerra, levando-o pra tudo quanto era lugar onde havia a oportunidade de tocar com mais alguém. Mesmo depois de adquirir outros sintetizadores e sample-players mais modernos, continuei a usá-lo por causa de alguns de seus sons bem peculiares, que nenhum outro conseguia fazer. Na virada do século, comecei a experimentar plug-ins e achei que havia alguns que poderiam substituir aquele teclado. Então, depois de quase 18 anos de serviços prestados, acabei vendendo o instrumento para um músico do Paraná.

Mas a vida dá voltas. Há seis anos me mudei para Curitiba e, recentemente, por uma incrível coincidência, encontrei o paradeiro do meu antigo instrumento. Acabei recomprando o sintetizador com tudo o que eu havia vendido com ele: cartuchos, breath controller e até um case feito artesanalmente por mim.

Por ser um instrumento projetado para durar, com exceção de alguns arranhões, lá estava ele, firme e forte. Tive pouco trabalho para colocá-lo de novo em perfeito funcionamento, tendo apenas que trocar o potenciômetro de volume e soldar na placa principal um novo soquete para a bateria de lítio.

Com mais de 25 anos de idade, o velho DX7 faz parte novamente do meu setup, em um lugar de honra. Mesmo com aquele ruídozinho de fundo, vários dos timbres que criei para ele na década de 1980 ainda são inimitáveis pelos plug-ins de síntese FM que testei até agora. Nada como o original.

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PS: Vale destacar as preciosas informações sobre manutenção de sintetizadores antigos que consegui nos seguintes sites:
Gearslutz.com
Negatron Blog
Yamaha DX7 Unofficial Resource Centre
Postado por Miguel Ratton em 26/3/2012 às 14:16
Eu sou um grande entusiasta das novas tecnologias e inovações, sobretudo quando elas produzem ganhos efetivos para usuários e a sociedade em geral. Existem vários exemplos, como os aparelhos de GPS, as cirurgias por videolaparoscopia e os automóveis flex. Mas há casos que realmente não entendo porque não funcionam como poderiam (e deveriam). Não pela tecnologia em si, mas pela forma como ela está sendo oferecida e aplicada. Um dos casos mais decepcionantes para mim é a telefonia celular.

As empresas operadoras de telefonia celular são capazes de vender aparelhos que fazem de tudo, e cada vez melhor, desde a captura de fotos digitais e reprodução de MP3 aos aplicativos de jogos e outros utilitários mais interessantes. Mas essas mesmas empresas não conseguem garantir uma qualidade razoável de áudio em todas as ligações! Quantas vezes atendemos uma chamada e temos que pedir para a pessoa repetir a frase porque está "falhando" ou "picotando"? E isso acontece principalmente quando temos que falar com os atendentes nos call centers das próprias empresas.

O atendimento adotado por essas empresas, chamadas de empresas de tecnologia, parece ser ainda realizado com sistemas baseados no velho MS-DOS, sem conexão em rede e sem recursos multitarefas. Você liga para o número de atendimento e quando seleciona a opção para que um humano lhe atenda, este invariavelmente lhe pergunta o número do seu telefone. Se você é transferido para outro atendente, terá que informar o número do seu telefone mais uma vez. Será que eles não podem usar o próprio sistema identificador de chamada? Outro dia, entrei em contato com a minha operadora para tentar fazer uma alteração de plano. Passei por três atendentes e todos me perguntaram o número do meu telefone. Levei quase meia hora grudado ao aparelho, a bateria acabando, e não consegui resolver nada. Fez-me lembrar dos idos da década de 1980, quando ficávamos mais de uma hora na fila do atendimento da TELERJ para resolver algum problema. Havia uma carência de telefones, é verdade, e o serviço era ruim. Mas o preço era ridiculamente barato se comparado com o que pagamos hoje.

Não sou especialista em marketing e negócios, mas acho que a maioria das empresas grandes perde facilmente o foco na satisfação do cliente. São gentis para oferecer vantagens a novos clientes, mas não dão a mínima importância para aqueles que lhes têm garantido o faturamento de ontem e de hoje. Estou na mesma operadora há oito anos, mas nunca consigo as mesmas condições de quem está entrando agora. Geralmente só me oferecem vantagens que não preciso.
Postado por Miguel Ratton em 6/2/2012 às 15:05
Vários dos nossos sentidos têm um comportamento não linear. Nossa percepção sobre alguns fenômenos que acontecem à nossa volta nem sempre tem uma relação idêntica à forma que usamos para aferi-los. Em outras palavras, nossas escalas de percepção são diferentes das escalas que usamos para medir esses fenômenos.

A maneira como manipulamos os sons, por exemplo, se dá por processos não lineares. Os aumentos que aplicamos à intensidade sonora, para que possamos sentir efetivamente as variações de dinâmica, seguem uma curva exponencial. Assim, para criarmos um crescendo no som de um instrumento, precisamos ir aumentando cada vez mais o nível de pressão sonora produzido por ele. Por isso adotamos a escala de decibéis, muito mais conveniente para os nossos ouvidos do que as medidas diretas de variação da pressão no ar. Da mesma maneira, usamos uma escala musical em que somamos ou subtraímos semitons, tons e oitavas em vez de lidar com valores baseados em expoentes fracionários. Até mesmo as figuras de ritmo têm relações não lineares, do tipo 1/2, 1/4, 1/8, etc.

Mas a não linearidade do nosso corpo vai além dos sentidos auditivos. Nossa percepção da variação de intensidade do brilho da luz também segue uma curva exponencial. E o mesmo ocorre com as variações de temperatura, onde incrementos iguais em graus não nos produzem sensações iguais de aumento de calor.

As características não lineares não estão apenas nas funções orgânicas. Quem tem mais de quarenta anos há de concordar que parece que os últimos dez anos passaram mais rápido do que os dez anos anteriores, e assim por diante. Ou seja, nossa escala de percepção do tempo também não é linear. O mesmo acontece com algumas áreas da nossa mente, como o conhecimento que adquirimos durante nossas vidas, que cresce de forma espantosa, havendo sempre espaço para mais informação. O cérebro parece um poço sem fundo, onde vamos jogando cada vez mais informações, mas nunca fica cheio.
Postado por Miguel Ratton em 26/1/2012 às 09:06
A tecnologia digital sempre foi um setor de aprimoramento crescente, em busca de componentes menores, mais rápidos e de menor consumo de energia. O aumento da capacidade dos microprocessadores é em grande parte uma consequência da demanda da indústria de software, sempre carente de mais poder de processamento para que possamos realizar mais coisas em menos tempo e, preferencialmente, a um custo mais baixo.

A miniaturização dos chips vem chegando a níveis extraordinários e já há quem duvide da continuidade da Lei de Moore (em 1965, Gordon Moore, um dos fundadores da Intel, afirmou que a quantidade de transistores dentro de um chip dobraria a cada dezoito meses). Um dos resultados diretos do aumento da densidade dos componentes é a capacidade cada vez maior de processamento e também a integração de funções. O 4004, primeiro microprocessador da Intel, continha 2.300 transistores e operava em 4 bits, enquanto um i7 atual contém centenas de milhões de transistores e opera em 64 bits, além de incorporar memória e outras funções.

Desde que a comunicação de dados passou a fazer parte de quase tudo em nossas vidas, as indústrias de alta tecnologia têm investido pesado no aumento das taxas de transmissão. Vivemos hoje com tudo interligado digitalmente: internet, TV a cabo, celulares, redes WiFi, equipamentos de áudio e instrumentos musicais. E para que possamos fazer mais coisas, com melhor qualidade e gastando menos tempo, é preciso que os bits trafeguem com maior velocidade entre um ponto e outro.

Eu tinha esperanças de que o padrão USB 3.0 (SuperSpeed), criado há quase três anos, fosse "decolar" no segmento de interfaces de áudio, já que permite transferir dados a cerca de 5 Gbps (gigabits por segundo; o USB 2.0 transfere a 480 Mbps). Mas, apesar da compatibilidade com o USB que usamos em inúmeros produtos e de já haver várias placas-mãe com USB 3.0 integrado, até hoje não vi um equipamento de áudio ou instrumento musical equipado com esse recurso.

Mas, felizmente, a indústria de áudio não dormiu no ponto. Começam a surgir notícias de novos produtos incorporando o recente padrão Thunderbolt, desenvolvido pela Intel, que transfere dados a 10 Gbps (veja matéria na AM&T 236, de maio/2011). O primeiro equipamento a ser lançado foi a interface Apogee Symphony I/O. Nesta semana, no evento NAMM 2012, foram anunciadas a interface de áudio/vídeo HDX-SDI, da MOTU, e a interface de áudio Apollo, da Universal Audio. Parece que uma nova onda está crescendo no horizonte.
Postado por Miguel Ratton em 10/12/2011 às 14:54
Na semana passada fui assistir ao show do 14 Bis, uma das melhores bandas de pop/rock surgidas na virada dos 70/80, e que ainda preserva a atitude e a vitalidade que tanta falta faz ao (pouco) rock brasileiro que ouvimos hoje em dia. Apesar de pequeno, o teatro da Caixa em Curitiba não limitou o brilho e a performance das cinco apresentações do grupo - todas lotadas. O pequeno palco deixou a banda "de cara" com a plateia, e foi um fator fundamental para o clima de intimidade com a legião de fãs fiéis ao grupo formado por Cláudio Venturini (guitarra), Vermelho (teclados), Hely Rodrigues (bateria) e Sérgio Magrão (baixo), apoiados pelos teclados e arranjos do Serjão Vasconcellos.

É em espetáculos como este, onde podemos ver os músicos de perto e ouvir seus instrumentos de forma tão direta e com tamanha realidade, que damos valor também aos pequenos espaços. Uma experiência diferente dos megashows, onde só vemos os artistas pelo telão e ouvimos o som de longe. Na verdade, boa música e grande performance tornam grande qualquer espetáculo, em qualquer lugar.
Postado por Miguel Ratton em 22/11/2011 às 11:38
Apesar da enxurrada de recursos e possibilidades que a tecnologia oferece atualmente, as inovações sonoras não aparecem na mesma proporção. Por exemplo, acho que a busca por novas estéticas de sonoridades era muito maior há 50 ou 60 anos do que hoje. Os pioneiros da música concreta dispunham apenas de gravadores magnéticos e pouquíssimos equipamentos eletrônicos, mas conseguiam ir muito além do que já existia. Será que não resta mais nenhum som diferente a ser criado?

Na década de 1970, o Pink Floyd explorava o som espacializado usando um sistema quadrafônico. No Brasil, na mesma época, cheguei a assistir um concerto de música eletroacústica em que o som, ainda que precário, era reproduzido por um sistema em volta do público.

Hoje, com o nível de qualidade altíssimo que já temos, me parece desnecessário aumentar ainda mais a resolução e a taxa de amostragem do áudio. Acredito que o que pode tornar a audição de música mais interessante e nos proporcionar novas experiências sensitivas é a imersão sonora. No cinema isto já é realidade há vários anos, mas nos espetáculos musicais praticamente ninguém explora essas possibilidades. Não por falta de tecnologia.

Uma boa tentativa neste sentido é a concepção da nova turnê d'O Rappa, em que a mixagem aproveita-se de duas torres de PA adicionais, posicionadas lateralmente atrás do público. O resultado é uma gama de novas possibilidades, ultrapassando os limites do som linear na frente do palco. Os detalhes desta experiência estão na edição de dezembro da AM&T.
Postado por Miguel Ratton em 31/10/2011 às 14:14
Uma das manifestações musicais mais interessantes que tenho visto na internet são os mashups, montagens combinando duas ou mais músicas, junto com imagens, às vezes criando até uma nova concepção estética a canções bastante conhecidas. As ideias vão desde mesclar Beatles com Bob Marley ou Pink Floyd com Bee Gees, até paródias políticas sobre aquela conhecida candidata ao governo do DF. Como as pessoas têm criatividade!

O trabalho desses artistas da colagem sonora e visual às vezes chega a um nível de elaboração impressionante, não se limitando apenas a sobrepor um vocal a uma base, mas também ajustando ritmo e afinação de vozes e instrumentos. Em alguns casos, o resultado é de fato impressionante.

Uma ferramenta que pode ajudar bastante nessa atividade e em outras aplicações de remix é o novo software R-Mix, da Roland. Ele permite isolar uma parte de um material já mixado e editá-la de várias maneiras diferentes, ajustando afinação, aplicando efeitos, etc. Vale a pena conferir a demo em: http://www.youtube.com/watch?v=Bp_tkFuzn3E
Postado por Miguel Ratton em 25/10/2011 às 19:42
Não faz muito tempo, fui chamado para dar uma assessoria na parte acústica da reforma de um pequeno auditório corporativo, orientado para workshops, palestras e apresentações do tipo happy hour. Depois de efetuar as medições acústicas do local, recomendei algumas intervenções, basicamente painéis difusores e materiais de absorção. Nada extravagante, tudo bastante convencional. Mas os proprietários do auditório acharam que os painéis não iriam combinar bem com a concepção estética idealizada para o local e também alegaram que o custo de confecção deles seria alto. Pediram então para eu avaliar outras opções de material acústico, que, na opinião deles, combinariam melhor com a estética do auditório. Analisando as características acústicas do material sugerido, informei que aquelas alternativas não seriam a melhor solução para os problemas acústicos observados no local e tentei ainda sugerir algumas adaptações estéticas aos painéis que eu havia recomendado. Nada feito. A conclusão que chegaram foi de que já haviam investido muito na reforma, nas poltronas e na iluminação, e aqueles painéis nas paredes estragariam a concepção original.

Certa vez, um amigo me pediu para opinar sobre um sistema de sonorização que seria instalado no auditório de uma associação, que também estava sendo todo reformado. Olhando a planta do local, argumentei que a posição prevista para as caixas acústicas provavelmente não seria a melhor opção em termos de ângulo de cobertura e sugeri que ficassem localizadas em outro ponto. Ao que ouvi: "Não, a arquiteta não quer as caixas neste ponto".

Numa outra ocasião, fui visitar um teatro recém-reformado, onde provavelmente não faltou verba para a decoração - linda, por sinal. Conversando com um dos funcionários no meio do auditório, percebi que havia algo estranho, e bastou bater palmas para ouvir aquele terrível "trrrrrr". Os painéis coloridos e muito bonitos aplicados às paredes laterais cumpriam sua função estética, mas de nada adiantavam para eliminar o flutter echo.

Sempre que visito um cliente, fico imaginando qual a importância que ele realmente dá à acústica. Na maioria das vezes me parece que o condicionamento acústico é a última coisa na lista de prioridades, depois das poltronas, do carpete, das cortinas, do ar condicionado e do telão.

O mais impressionante é que esses locais têm como atividade-fim a produção e a reprodução de som lá dentro, seja com palestras, seja com apresentações musicais. Quantas vezes vamos a um auditório de um colégio ou de uma empresa, com uma decoração moderna e bem transada, mas quando alguém começa a falar no microfone é aquela desgraça. Para mim, som e acústica ruim é a mesma coisa que assistir a um filme com a tela inclinada ou com um refletor apontando para a tela.
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