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Revista Luz & Cena
Lugar da Verdade - Enrico De Paoli
Neste espaço, Enrico De Paoli fala de suas experiências e histórias em engenharia de música, estúdios e shows.
Fala também do mercado musical e fonográfico e de suas tecnologias.
Postado por Enrico De Paoli em 1/10/2011 às 12:16
Costumo dizer que os equipamentos não valem o que custam. Bem, não é exatamente assim... Digo, por exemplo, que as diferenças entre um Pro Tools LE e um Pro Tools HD não correspondem à diferença entre os preços deles, ao passo que a diferença entre o preço de um pré-amp de microfone Behringer e de um Neve não equivale à diferença entre o som de cada um.

Sim, os equipamentos melhores são melhores, mas talvez não tão melhores assim. Se há casos em que as diferenças são até imperceptíveis, há ainda aqueles em que o equipamento mais caro pode simplesmente não agradar. Lembre-se sempre de que estamos lidando com música - um mix de ciência exata e inexata. Por isso, em alguns outros casos, um equipamento menos sofisticado pode gerar um timbre com mais personalidade, agradando em cheio ao usuário.

Bom, sendo assim, para que comprar equipamentos mais caros? Vamos por partes. Em primeiro lugar, devemos adquirir o que faz bem aos nossos ouvidos. Ponto final. Porém, aqui vai o ponto chave: assim como um canal "solado" em uma mix não mostra o que ele representa quando tocado junto com os outros instrumentos, em um arsenal de equipamentos a grande diferença está na soma das pequenas diferenças e em como um item interage com os outros. Vou citar um exemplo.

Outro dia, em um estúdio, conheci a nova SSL Matrix. A famosa fábrica das mesas milionárias inteligentemente se adaptou aos novos mercados e agora está fabricando mesas menores, para produtores e engenheiros independentes, home studios e estúdios particulares de alta classe. Então, no estúdio onde eu me encontrava, abrimos uma sessão e ouvi mesma somada no Pro Tools e na mesa. Não acreditei na diferença: praticamente nenhuma! Mas como assim? Não é possível!

Fiz vários testes comparativos, vários A/B, e, novamente, considerando o valor investido (e a beleza que eu via à minha frente), achei minúscula (ou nula) a diferença. Não me contentei e conferi vários outros testes online para tentar entender o ocorrido, o que aconteceu quando recentemente fui aos EUA abrir umas mixagens de um disco que mixei em uma mesa SSL analógica (falarei disso no próximo mês).

A diferença no resultado final do disco foi imensa. Mas peraí? As duas eram SSL analógicas, com teoricamente o mesmo sistema de soma e circuito analógico. Pois é... A diferença nem sempre está em uma "mudancinha", mas na soma delas.

Fazendo uma analogia, quando equalizamos um track ou uma master, se aumentamos 0.2 dB em 3k15 Hz ouvimos pouca ou nenhuma diferença. Bem, claro que ouvimos, mas, convenhamos: não estou falando de 5 decibéis. Já se aumentamos 0.2 dB em 3k15 Hz e diminuímos 0.2 dB em 1k6 Hz, a diferença entre essas regiões vizinhas passa a ser bem maior aos nossos ouvidos. Eles não só estão ouvindo mais 3k15, como também estão ouvindo menos ainda da frequência vizinha (1k6 Hz), que nosso cérebro tinha como referência para julgar o 3k15. Esse é o ponto!

Então, se seguimos com nossa "equalização-mais-do-que-sutil" em algumas frequências, quando finalmente desligamos o equalizador para comparar com o que tínhamos antes, a diferença é um mundo. Bem mais do que 0.2 dB.

Nem sempre 2 + 2 = 4, entenderam? Tá dado o recado!

Boas mixes, boas escolhas e bons resultados para todos.

INSERIR O CURRÍCULO ABAIXO
Enrico De Paoli é engenheiro de música. Mixa e masteriza em seu estúdio híbrido analógico-digital Incrível Mundo. Seus créditos mais conhecidos são Ray Charles e Djavan. Site: www.EnricoDePaoli.com
Postado por Enrico de Paoli em 6/9/2011 às 18:06
Essa talvez seja a pergunta mais comum por trás das cenas da indústria fonográfica. "Quantos dB a mais na voz?", "quantos dB a menos no reverb?" e "tira quantos dB da guitarra?" são algumas frases recorrentes. Mas, afinal, o que é dB? O dB, ou decibel, é uma medida logarítmica e comparativa. Um décimo de um bel é, teoricamente, a menor variação de volume perceptível ao ouvido humano. Teoricamente. Mas essa variação de decibéis não se aplica somente a volumes de um canal de instrumento ou voz. Em equalizações, por exemplo, se uma voz está um pouco escura, precisamos de mais brilho, mais agudo. Então vamos lá: quantos dB de 10 kHz precisamos adicionar no equalizador? Lembremos de que o equalizador não é nada mais do que uma ferramenta que nos permite aumentar ou diminuir os volumes das frequências. Logo, de volta aos decibéis.

Compressão? A mesma coisa. Um compressor diminui a variação de volume de um canal de instrumento, voz ou o programa musical completo. Logo, diminui em "tantos" decibéis o volume de um evento sônico. Sim, mas quantos dB? Como disse antes, dB é uma medida relativa, logo um som é "x" dB mais alto do que outro. Mas não é só isso que é relativo: 1 dB de voz a mais em uma música não é o mesmo que 1 dB de voz a mais em outra, pois por mais que a medida seja igual, a sensação auditiva depende do arranjo, da performance, do microfone, do cantor e da dinâmica daquele track.

O que toca junto com aquela voz naquele momento? Ou, mais importante ainda: o que vinha tocando até aquele momento? Se a mix foi construída no decorrer da música e o arranjo cresceu muito até aquela parte da faixa, 1 dB a mais de voz no refrão pode ser necessário para que o ouvinte ache que ela continua no volume "certo". E mais: embora sensível a mudanças, o ouvido se acostuma facilmente a muitas situações. Quantas músicas possuem vozes super altas, "na cara", ou mixes muito fechadas nos agudos? Elas só soam estranhas para nós se estivermos ouvindo algo muito diferente antes, ou, claro, se o tal timbre não combinar com a música e seu arranjo.

Os decibéis também são relativos nos equalizadores, e 1 dB de agudo é diferente em cada EQ. Se estivermos falando de equalizadores analógicos, mudam os componentes, o design e a topologia do equipamento. Se falamos de plug-ins, mudam os algoritmos e fórmulas. Na prática, mudam a curva de equalização, os harmônicos e - o mais importante - como os ouvidos percebem tudo isso no decorrer da música.

Gosto de usar, como exemplo, um caso de quando eu mixava a turnê Ao Vivo, do Djavan. Na música Pétala havia um lindo solo de sax do Marcelo Martins, que começava num registro mais grave e delicado e ia se construindo até terminar em uma nota longa e altíssima. Em seguida, Djavan voltava, cantando num registro suave. Se eu não mexesse no timbre dele naquele momento, sua voz pareceria "apagada" para os ouvidos que estavam "equalizados" pelo solo de sax que tinham acabado de ouvir. Para que a voz soasse natural e encaixada depois do solo, eu tinha que adicionar de 6 a 8 dB de média-alta e lentamente ir trazendo a voz de volta para a sua equalização "normal". Desse modo, tudo soava natural e encaixado. Sim, dB é algo muito mais relativo do que matemático. Esqueça os números: mixe para a música! E para os ouvidos.

Enrico De Paoli é engenheiro de gravação, mix e master. No momento, está mixando um single do Jorge Vercillo. Conheça o Mix Secrets, sua turnê de palestras e treinamentos. Informações em www.EnricoDePaoli.com.
Postado por Enrico de Paoli em 10/7/2011 às 00:00
Já cansei de escrever sobre compressores por aqui, mas o assunto parece não acabar nunca! De fato, há muito mais em um compressor do que um simples leveling amplifier, ou limitador de dinâmicas. Musicalmente, os efeitos podem ser radicais. Para ambos os lados.

Vamos ao mito: "quando se comprime, o som vem para a cara". Não! Quando se comprime, o som é achatado. Se o timbre de uma performance ou de uma mix é muito frouxo, fazendo parecer que as notas altas são altas demais e deixando as baixas "sumidas", sim, o compressor pode ajudar. Porém, até nestes casos a ajuda tem um preço, que é fazer o timbre engordar. "Mas isso não é ótimo?" Pode ser e pode não ser. Um timbre mais gordo tende a ter menos definição, menos articulação, menos respiração, menos attack, e ocupa mais espaço. Não apenas dentro da mix, mas dentro dele próprio. Mas como avaliar se tudo isso é benéfico ou não?

Além do fato de que mixagem é pura perspectiva, ou seja, o timbre é muito mais do que "como ele soa", mas, principalmente, "como ele soa na mix", um timbre, seja dentro de uma mix ou seja ele o programa todo (uma mix ou uma master), cria dois impactos no ouvinte: como ele soa à primeira vista (ou "ouvida"), e, depois, como irá soar ao longo da música. Pronto - é justamente aí que entra a traição do nosso velho amigo compressor. É muito comum que de início gostemos muito do timbre por ele proporcionado, mas é mais comum ainda que a falta de articulação e de respiração nos cause alguma fadiga e cansaço após ouvir por alguns minutos. Ou até por alguns segundos! Imagine em um disco inteiro. Mas por que isso acontece? E o que fazer quanto a esse problema?

Simples. Alguém disse que temos que comprimir todos os canais de uma mix? Volto a citar um termo que já usei várias outras vezes por aqui: contraste. Tenho adoração por contrastes em qualquer área da vida, e em uma mixagem não poderia ser diferente. O que seria de um timbre articulado se não fosse outro comprimido ao lado? Tá bom, funcionaria, mas o contraste entre os dois pode cair muito bem. Mas não vá comprimir ou deixar de fazê-lo somente pra criar tais contrastes. Tire proveito de um áudio que precise de menos articulação junto a um que soe lindo solto, respirando, como veio ao mundo. E lembre-se de que um track nunca vai soar na mix como soa sozinho, solado.

Além disso, não se concentre em uma única sessão da mix. Por exemplo, não fique mixando o refrão durante meia hora, sem parar. É importante que o ouvido se afine com o que ele vem ouvindo desde o início. Assim, sentirá o refrão como o ouvinte que está escutando a música inteira vai ouvir. Mas agora já estamos partindo para outro assunto... E a ideia dessa página de hoje é simplesmente alertar para não deixarmos os viciantes compressores nos fazerem cansar de ouvir a música.

Boa viagem.


Enrico De Paoli é engenheiro de gravação, mix, master e turnês. Atualmente divide seu tempo entre a tour Ária, de Djavan, e mixes e masters em seu Incrível Mundo Studio. Site: www.EnricoDePaoli.com
Postado por Enrico de Paoli em 10/6/2011 às 00:00
Há algum tempo a moda é falar dos volumes dos discos. Ou melhor, das masters das gravações. Porque a palavra disco saiu de moda. Então, estamos há alguns bons anos discutindo, lendo e debatendo a quantas andam esses discos altíssimos. Mas e o que ouvimos nos shows? Qual o volume certo do som de um show? Quando o PA está alto ou baixo demais?

Bom, não quero estragar meu próprio artigo, mas a resposta é bem simples: se você se pega pensando em "tá muito alto" ou "nossa, que baixo!", provavelmente tem algo errado. Assim como na masterização de um disco, a mixagem de um show deve ser feita para a música. Porém, diferentemente de um disco, o tipo de mixagem de um show ainda depende de outros fatores, como o ambiente acústico, os ruídos de fundo e o tipo de público. Sim: se o show é para uma platéia elegantemente sentada e silenciosa, que está lá para assistir a um "evento musical", o volume provavelmente não precisa ser tão alto quanto o de um show com milhares de jovens em pé, bebendo cerveja e falando alto. Bem alto.

Assim como em um carro a sensação de velocidade pode ser diferente da real, ou um dia de inverno pode causar a sensação térmica diferente da temperatura do termômetro, em um show a sensação do volume pode ser bem diferente do que o decibelímetro lê. De uma maneira geral, a meta é fazer com que o som tenha pressão, mas sem incomodar ou cansar os ouvidos. Mas, de novo, isso vai variar de acordo com o show, local, público e música. Esses elementos todos em uma equação equivalem ao que o público vai esperar do som.

Estou neste momento mixando a turnê Ária, do Djavan. Indubitavelmente, a tour mais difícil da minha carreira. Djavan, por natureza, apesar da origem voz e violão, gosta de espetáculos. Principalmente depois de ter provado dos megashows na turnê Ao Vivo, realizada entre 1999 e 2000. Este show, Ária, é concebido de forma enxuta, com apenas três músicos no palco, sendo baixo acústico, percussão e guitarra, além do artista e seu violão. Ou seja, naturalmente, uma concepção lounge. Porém, o modo de cantar do Djavan revela seu desejo de "showzão". Não apenas isso: os locais onde temos feito shows "pedem" pressão. Para confundir ainda mais, intercalados, no meio da tour, surgem uns shows em locais extremamente diferentes, como teatros com acústica perfeita e público em absoluto silêncio, tentando perceber cada respiração no palco. Então, como mixar essa turnê? Como sempre, o que me salva é fugir das regras. Quando falo "fugir", não quero dizer "não conhecê-las", mas, justamente por conhecê-las, driblá-las.

Existe uma interatividade muito grande entre o palco, a mix e a plateia durante um show. Um "puxa" o outro. Às vezes, mixando um PA mais baixo, você consegue conter o público, fazer com que ele amanse e preste atenção em nuances baixas do show. Porém, se o cantor ou a banda emitirem mais energeticamente, o público entende isso imediatamente e responde com energia em forma de barulho. É aí que o mixer deve ter a sensibilidade de perceber quando ele está no controle do público ou respeitando o que o show pede. Mas, calma - não vá mixar nas alturas e usar essa frase como desculpa! Por mais que o evento peça um som mais energético, lembre-se do início desse artigo... Queremos peso, pressão musical, mas nada que canse nossos ouvidos ou que dure o show todo. Deixe a música pilotar e, definitivamente, não tenha medo dos momentos de baixo volume. Eles podem ser os mais emocionantes, se combinarem com o todo.

Boa viagem.
Postado por Enrico de Paoli em 1/4/2011 às 00:00
Às vezes os assuntos aqui são mais musicais. Em outros momentos, mais sobre o mercado musical do mundo. E também falamos de técnicas de engenharia de música, gravação, mixagem e master, assim como PA e áudio de shows. Normalmente tenho como foco, não apenas aqui, mas também quando estou trabalhando, passar por cima de paradigmas que nos algemam de conseguir resultados bacanas. Apresento, a seguir, um exemplo.

Durante uma mixagem, o engenheiro de som pode passar horas em um canal, achando a "regulagem" perfeita para o compressor. Mas o que acontece quando aquela regulagem perfeita não é tão perfeita assim para todos os momentos da música, como quando, por exemplo, a introdução é totalmente diferente do resto da canção ou quando um cantor canta em um registro e intensidade nos versos e nos refrões ele solta a voz como se fosse a última estrofe de sua vida?

Na era das mesas analógicas e dos compressores externos, resolver este problema não era uma questão tão simples e na cara do engenheiro. Mas se o mesmo realmente conhecesse o equipamento, era possível fazer um paralelo da voz em outro canal da console e alimentar o circuito de trigger/side chain do compressor e pilotá-lo por este fader paralelo em automação. Voilà! Você acaba de fazer automação no threshold do seu compressor valvulado com sua mesa analógica. Mas, hoje em dia, nada disso é mais necessário. Se você conta com um bom sistema de mixagem no seu computador, possui à mão todas as ferramentas para fazer uma mixagem bem rapidinho (não me pergunte por que hoje as mixagens demoram muito mais do que antigamente!).

Mixando dentro do computador, você consegue habilitar a automação para qualquer parâmetro de qualquer plug-in. Nesse caso, habilitemos a automação do threshold do compressor da voz. O motivo é simples: se lembrarmos que o threshold é uma linha imaginária e que o compressor entra em ação somente quando o volume da voz a ultrapassa, fica fácil entender que se você ajusta essa linha para uma introdução cujo volume da voz é sutil, quando chega o refrão, o compressor "achata" a dinâmica da voz por completo, destruindo o timbre da mesma. Por outro lado, se o engenheiro ajusta o threshold se baseando no ganho da voz no refrão, quando tocar a introdução com a voz bem baixinha, o compressor não vai nem perceber o áudio passando por ele.

Logo, aquele paradigma do ajuste perfeito, milimétrico, intocável, do compressor, acaba de cair. Não existe ajuste perfeito. Se a música é dinâmica, muitas vezes os settings dos equipamentos também têm que ser.

Boas mixes. Pois, no fim, é só isso o que interessa.

Enrico De Paoli é engenheiro de gravação, mixes e masters. Atualmente divide seu tempo entre o Incrível Mundo (www.EnricoDePaoli.com) e a tour Ária, de Djavan.
Postado por Enrico de Paoli em 1/3/2011 às 00:00
Depois de anos de reinado, os pré-amps de microfones estão perdendo um pouco de espaço para a sedução dos summing mixers. Chamados também de summing boxes, estes equipamentos têm a função de trazer de volta para o mundo dos workstations digitais o mix bus analógico. O que quer dizer isso tudo? Vamos lá.

"Antigamente", as músicas eram gravadas em fitas e mixadas em mesas analógicas. Não existia conversão de áudio para o domínio digital. As ondas sonoras eram captadas por microfones e transformadas (não convertidas) em voltagem, e assim trafegavam pela eletrônica do estúdio todo. Durante uma mixagem, os canais individuais da fita, que chegavam cada um em um canal da mesa ou console de mixagem, eram, então, todos somados em dois canais para se obter um programa estéreo. Esse estágio em que todos os canais da mesa viravam apenas dois canais era (e ainda é) chamado de mix bus.

O tempo passou e o estúdio passou a caber dentro de um laptop. Se o som melhorou ou piorou, será uma eterna discussão. Fato é que a sonoridade mudou. Durante muito tempo comparou-se som de fita com som de ProTools. Chegou-se a achar que se os timbres fossem captados com a sonoridade clássica e gravados dentro de um computador, o resultado seria igual ao obtido nos estúdios antigos. Não deixa de ser verdade. Mas uma nova teoria chegou ao mercado: se enviarmos os tracks de dentro do computador para um mix bus externo, analógico, chegaremos ainda mais perto do resultado clássico do que se o mixer virtual de dentro do computador fizer o trabalho de somar todos aqueles canais em dois (estéreo). Ok. Mas esse não é exatamente o foco desse artigo. Acredito que sejam milhares os fatores que fazem com que os discos hoje tenham uma sonoridade diferente, e um deles é o método. A logística. O formato (físico) de se trabalhar.

Sentar à frente de um console lotado de faders e botões com tudo à mão faz com que a gente trabalhe diferente. Melhor? Impossível dizer que sim, até porque não há dúvidas de que hoje temos muito mais recursos do que antes. Mas ao mesmo tempo em que isso é ótimo, também é um fator de desconcentração. Quando tudo o que temos são faders, eqs, dois reverbs e dois delays, fazemos uma mixagem, não uma cirurgia sônica. Tá certo que ter 20 compressores diferentes na sua pasta de plug-ins é um belo arsenal de ferramentas. Dá pra modelar um track? Claro! Muito! Mas não é isso que faz uma mix. Faz. Mas não faz.

O que faz uma mix é você reger os tracks de forma que um "fale" com o outro. Quando um instrumento está tocando, ele está no lugar e volume certos para que, na hora em que outro entra, o outro "se sinta especial". Como se os instrumentos estivessem em uma mesa batendo papo e um fizesse o outro se sentir mais bonito. Porém, neste momento, quem está no comando disso tudo é você. E se falamos em comando, falamos em ergonomia. Nossas ações mudam de acordo com a posição das ferramentas e os hábitos físicos que elas nos causam. Exemplo disso é quando um instrumentista se acostuma a tocar uma frase musical por estar viciado naquela digitação no instrumento.

Logo, acho sim que a soma analógica pode fazer alguma diferença, mas os hábitos de quem está mixando certamente causam mudanças radicais no resultado final de uma mix. Qual é melhor? Cada um sabe o que é confortável para si.

Enrico De Paoli é engenheiro de mixes e masters. Viveu toda a transição analógico-digital-virtual e seus créditos vão de Ray Charles a Djavan. Mixa e masteriza em seu estúdio, o Incrível Mundo. Site: www.EnricoDePaoli.com
Tags: mixagem
Postado por Enrico de Paoli em 7/2/2011 às 00:00
O que mais me encanta na música é a capacidade que uma canção tem de mudar o seu estado de espírito. Seja de calmo pra animado, de triste pra feliz ou vice-versa. Mas uma das coisas que mais me impressiona no áudio é a maneira como nosso cérebro interpreta o som, como nos conhecidos efeitos Haas e Doppler da psicoacústica.

O efeito Haas, que carrega o nome de seu descobridor Helmut Haas, é o fenômeno que ocorre quando o cérebro interpreta duas fontes sonoras idênticas (com uma precedendo a outra) como se a primeira fosse absolutamente mais alta do que a segunda. Por isso ele também é conhecido como "efeito da precedência".

Quem nunca passou pela seguinte situação: um violão gravado em estéreo, captado com dois microfones afastados. Você abre o pan desses dois canais e tem a nítida sensação de que o lado esquerdo está muito mais alto. Ao olhar para os meters ou VU, eles indicam exatamente o oposto: o lado que soa mais alto tem menos nível na gravação. Como isso é possível ? Simples. O microfone que estava mais próximo da fonte sonora recebe áudio antes do outro. Estes milissegundos fazem acontecer o efeito Haas e o cérebro acha que ele é mais alto do que o áudio que chega depois, mesmo que tenha menos nível. Tendo dito isso. Hora de brincar!

Imagine o seguinte cenário: você está montando sua mixagem de frente para o computador. Volume pra cá, volume pra lá. Baixo elétrico no centro, voz também, guitarra mais pra um lado, piano mais pra outro. Tudo parece bem normal. Aliás, normal demais! Que tal dar uma enchida nessa mix vazia, fazendo esses dois elementos, guitarra e piano, que são mono, soarem maiores na mix? Então vamos lá.

Crie um novo canal de áudio. Copie o audiofile do piano para este novo canal. Agora você tem dois tracks com os mesmos audiofiles. Abra o pan destes dois tracks - um todo para a esquerda e o outro todo pra direita. Insira um short delay no track estéreo ou em um dos mono-tracks e vá atrasando (entre 1 e 30ms) apenas um dos tracks. Pronto. Sentado entre suas caixas de monitoração, você terá a nítida sensação de que o piano está indo para um lado do pan sem que você altere em nada o volume de nenhum dos lados. Se você fizer o mesmo com a guitarra, atrasando o outro lado, você terá os dois elementos abertos, porém com seus sons continuando a sair com o mesmo volume nas duas caixas sem que o cérebro perceba. Isso é um ótimo jeito de encher mais uma mix vazia, transformando um timbre originalmente mono em estéreo. Se a gente entende como as coisas funcionam, elas passam a ser ferramentas, e as regras de uso só dependem da criatividade de cada um!

Boas inspirações para todos.
Tags: pan
Postado por Enrico de Paoli em 3/1/2011 às 00:00
Segundo Murphy, "se há algo para dar errado, dará". E deu. Mês passado estava fazendo a tour norte-americana com Djavan, mixando os shows do novo álbum Ária. Estava em Miami Beach, no Jackie Gleason Theater /Fillmore. Com o PA bem alinhado e a sala soando muito bem, comecei as configurações na Yamaha PM5D. Não, eu não tinha levado um pen drive, pois no Brasil estava usando outra console e nos EUA usei mesas variadas. Então, o procedimento de "montagem" ficou como nos velhos tempos. A mesa precisava ser configurada.

Assim eu fiz. Mesa configurada. Canais com nomes. Alinhamento do PA usando o gráfico da própria mesa. Começa a passagem de som. Sabe aquele dia em que a passagem soa como um CD? Então. o dia estava assim. Hora de salvar a mesa. Peraí. Eu já devia ter salvo! Tá, mas não fazia tanta diferença assim. Eu não carregaria outra cena na mesa, ninguém abriria o show, eu não usaria essa mesa em outro lugar. Mas, ainda assim, claro que é um bom hábito salvar tudo e qualquer coisa que fazemos em um computador. Então, vamos salvar.

Quando eu dava comando de salvar, a mesa informava que não podia salvar naquela cena, e, ao mesmo tempo, não me deixava mudar para outra. Tentei de tudo. Mudei o diretório. Usei um drive externo, mas nada parecia funcionar. Chamei o engenheiro da empresa de som pra ver se ele tinha alguma ideia. Ele tentou tudo o que eu já havia tentado e, de repente, esbarra no teclado de computador que está conectado à mesa. Este cai no chão virado para baixo e o teclado aciona alguns comandos aleatórios na PM5D. Um desses comandos infelizmente foi o Load de outra cena qualquer. Isso mesmo. A mesa havia carregado uma outra cena da memória por cima da minha cena não salva! Nossa, que arrependimento por ter pedido ajuda! Minha mesa estava pronta antes do teclado cair! Não precisava de nada. Era só esperar a banda voltar do hotel nos 45 minutos que eu tinha antes de começar o show. Isso mesmo! A banda não estava mais no palco para soundcheck e o show começaria em 45 minutos. E agora?

Eu sempre falo que devemos mixar para os ouvidos. É como sempre faço e é como eu tinha acabado de fazer antes do fatídico acidente. Mas naquele momento eu não mais podia "botar som na caixa". A casa já estava aberta para a entrada do público e, como eu disse, a banda não estava mais lá ! Ok. "Modo vôo cego" acionado! Renomeei os canais rapidamente e alinhei o PA sem música ou pink noise. Tive que usar a minha memória recente pra me lembrar de como o PA soava, o que sobrava e o que faltava nas frequências. Não era tão difícil, afinal, eu tinha acabado de fazê-lo menos de duas horas antes. Quanto aos canais, não refiz nenhuma equalização precisa, apenas filtrei os graves com o highpass filter dos canais que eu já sabia que não precisaria de subgrave algum, como a caixa da percussão, os pratos, a conga, os violões e vozes. Com um microfone SM58, passei um canal com a minha voz (e o PA desligado) para me certificar do ganho do pré-amp, e, a partir dali, imaginei os ganhos dos outros canais. Sempre chutando pra menos, pois é melhor um elemento começar baixo demais durante o show do que entrar muito mais alto do que deve. Além disso, fiz o patch dos efeitos na mesa. Me lembrei das salas que eu havia escolhido antes e alinhei os níveis dos reverbs e delays por instrumentos! Ou seja, lendo apenas os meters da mesa. Novamente, chutando pra menos pra não entrar nenhum delay berrando durante o show.

Na verdade, isso tudo parece muito assustador. Mas mesmo em um show "normal", onde tudo corre tranquilamente durante a passagem de som, a verdadeira mix acontece durante o show. Tudo muda quando o público entra. A acústica, o ruído de fundo e até a maneira que a banda toca. Claro que é mais tranquilo saber que cada fader levantado já está pronto. Mas, mesmo assim, durante o show pode ser necessário (e até comum) alterar a equalização, compressão e outras características de cada canal.

O show foi ótimo. Fica a lição de começar o dia salvando o projeto. E termino nossa página com a velha mensagem: mixe para a música e para o que seus ouvidos estão ouvindo dela.

Enrico De Paoli é engenheiro de música. Mixa e masteriza em seu Incrível Mundo Studio e está mixando o PA da tour Ária, de Djavan. www.EnricoDePaoli.com
Tags: Murphy
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