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Revista Luz & Cena
Sonorização
Som e Luz no Museu Imperial
Áudio de espetáculo sobre a história do Brasil é mixado ao ar livre
Angela Zanella
Publicado em 01/02/2003 - 00h00
Divulgação
 (Divulgação)
O que você faria se, ao entrar em um museu, ouvisse vozes de pessoas que moraram ali há 150 anos? Essa viagem no tempo, mistura de história com o presente, assim como de realidade com representação, criam o clima do espetáculo Som e Luz, que estreou em novembro na cidade de Petrópolis, no Rio de Janeiro. "É um grande filme. A idéia foi criar um aspecto de sonho, onde as pessoas não soubessem ao certo o que é real e o que é do show", disse o diretor do espetáculo, Ricardo Nauenberg. O Som e Luz foi montado no Museu Imperial, antigo Palácio Imperial, que serviu de moradia para D. Pedro II e sua família, e retrata, em 38 minutos, momentos importantes da história do Brasil através de áudio, iluminação, projeções e filmes.

Para muitos que assistem ao espetáculo, o sistema de som surround 4.1 é uma surpresa. O show começa no meio do jardim do palácio: acendem-se luzes entre as plantas e, em seguida, ouvem-se cavalos se aproximando. Como em um programa de rádio, a história começa a ser contada somente pelos sons. O cocheiro convida o público para ir ao Baile das Princesas, no Palácio Imperial. Muitos olham ao seu redor procurando onde estão os cavalos, ou melhor, de onde vêm aqueles sons. São quatro caixas JBL EON G2 e dois subwoofers Meyer Sound 650-P espalhados ao redor do local onde fica o público nesse jardim. Essa parte é uma introdução, que prepara a platéia para o show de luzes e projeções que virá a seguir.
O cocheiro apeia o cavalo e o som vai se deslocando para outras dez JBL Eon e quatro subwoofers Eon Sub, colocados no caminho que leva do jardim ao palácio, enquanto as luzes desse trajeto se acendem. A luz e o som pontuam todo o espetáculo, conduzindo os espectadores para onde as seqüências da história serão contadas. Além disso, o objetivo da música foi acrescentar informações para envolver mais o público, conforme explica Eduardo Queiroz, compositor da trilha e responsável pela gravação de todo o áudio: "eu acho que a música não tem que ilustrar, ela tem que participar, porque ilustrar é muito pouco, não há tanto impacto. A nossa experiência sensitiva é uma só, a gente recebe tudo ao mesmo tempo e se equilibrarmos isso o resultado fica mais completo".
Quando o público chega em frente ao Palácio, o narrador conta como o prédio foi construído e, acompanhando a história, vêm as luzes para direcionar a atenção dos presentes para cada parte da construção sobre a qual o narrador vai falando. Nesse trecho foram instaladas quatro JBL Eon e dois subwoofers Meyer Sound.

Sombras, fantasmas ou pessoas?
Depois disso, o público vai até o lado esquerdo do Palácio Imperial, direcionado pela luz e pela narração. Lá é acionada uma cortina de água que atinge 6m de altura por 17m de comprimento - servindo como tela para o filme. A água cai sobre uma piscina que fica escondida sob pedras, entre a vegetação do jardim. Em alguns momentos a projeção é interrompida sem que o som pare, e as luzes do interior do Palácio se acendem. Nas janelas surgem sombras de pessoas e, de acordo com a história que segue sendo contada pelas vozes dos atores, narradores e pela música, o público identifica os vultos. A projeção de sombras é tão perfeita que muita gente sai do show pensando que realmente existiam atores dentro do palácio representando as cenas. O efeito foi obtido através de imagens gravadas em DVD, projetadas em telas que ficam atrás das janelas do Museu Imperial. As imagens são geradas em uma sala subterrânea que fica no jardim, a mais de 100m da sala do Palácio, e são transmitidas por uma fibra ótica até os projetores de multimídia Epson modelo 7700, dentro dos salões do prédio. São cinco projetores para dez janelas.
Durante todo o espetáculo as projeções de sombras, do filme e o som vão se alternando. Oito caixas Meyer Sound MSL4 e quatro subwoofers também Meyer Sound, modelo 650-P, foram dispostos nesse ambiente. Conforme as imagens vão mudando das janelas para o filme e o som vai para outras caixas, os espectadores precisam se virar para frente e para trás para assistir. Esse tipo de produção foi concebido justamente para colocar o público dentro da história e, com essa aproximação, despertar o interesse pelo museu. "O público está no espetáculo como convidado, tanto é que a chamada (do cocheiro no início do show) é : 'vamos todos para o baile'. É o único espetáculo de som e luz da forma como foi concebido", diz Altair Ribeiro, gerente de operações do Museu Imperial.

Ópera + música eletrônica
O projeto começou a ser preparado há dois anos e a primeira coisa a ficar pronta foi a trilha sonora. Tudo foi gravado em Pro Tools 24 Mix no home studio de Eduardo Queiroz. Para ficar em sintonia com a mistura de passado e presente, característicos do espetáculo, o compositor inspirou-se em elementos de ópera - que era uma das paixões de D. Pedro II - como coros, orquestração, e também em música eletrônica, utilizando baterias e construções características desse gênero musical. "Eu me baseei em coisas da época, mas apenas me inspirei porque a música daquele tempo não funcionaria para este tipo de apresentação", diz. Para gravar orquestras e coros, Queiroz utilizou o software sampler GigaStudio 160, da Tascam. Alguns instrumentos orientais, baixo, percussão e algumas vozes foram gravados em estúdio para esquentar o som.
Na captação das vozes dos atores também houve um certo hibridismo: elas foram gravadas em estúdio e durante a gravação do filme projetado no espetáculo. Em estúdio foram utilizados microfones Neumann e na captação do filme, mics de lapela e shotguns da Sennheiser. Para a narração de Paulo Autran também foi usado um shotgun Sennheiser porque a captação aconteceu na casa do ator e Queiroz optou por ele ser direcional e não tão sensível quanto um Neumann. "O shotgun tem uma curva de equalização diferente do Neumann, o que me dá muito mais corpo de voz", diz.
Havia a intenção de passar um certo realismo nas falas dos personagens, por isso, quando as conversas são mais reservadas, como na representação de um diálogo entre D. Pedro II e sua filha, princesa Isabel, ouve-se com clareza a respiração dos atores. "Até uns pequenos erros, como a atriz que troca a fala dizendo 'a condessa' em vez de 'a princesa', nós deixamos, porque assim é como seria numa conversa. Pequenos ruídos ou uma respiração maior a gente também deixou para dar a sensação de que era assim", conta ele. Somente as vozes foram equalizadas, o que foi feito com os próprios plug-ins do Pro Tools e em toda a trilha poucos efeitos foram utilizados. Essa mudança de tipos de microfones não foi benéfica, pois a sonoridade muda bastante de cena para cena, chegando a ponto de mudar mesmo dentro da mesma cena. O uso de microfones de lapela também acrescentou desagradável ruído, ao roçarem eles na roupa dos atores.
Se nas falas houve preocupação com o realismo, na sonoplastia o objetivo foi a beleza estética. Todos os efeitos foram produzidos com o uso de instrumentos. Nas cenas que falam da Guerra do Paraguai, por exemplo, as explosões foram feitas com percussões. "Eu acho que temos que usar soluções mais simbólicas, dá um resultado muito mais interessante", diz Queiroz.
 
Mixagem no jardim inferior do Museu Imperial. Sentados da esquerda para a direita: Eduardo Queiroz, Ricardo Nauenberg e Sólon do Valle.


Equipe que trabalhou na sonorização. Da esquerda para a direita estão Rafael Marquez, Márcio Reis, Sólon do Valle, Ricardo Miranda e Marcelo Noronha

Estúdio de mixagem: Jardins do Museu Imperial
Outro fato interessante na produção do espetáculo foi a mixagem, feita de uma maneira pouco convencional. Poucos dias antes da estréia, Queiroz e o engenheiro de som Sólon do Valle, responsável pela sonorização do espetáculo, fizeram a mixagem nos jardins do Palácio Imperial. "Eu sugeri que fosse feita a mixagem no local para ouvir o material em condições reais, não fazer tudo dentro de um estúdio e depois, ao reproduzir lá (no Palácio), estar com o equilíbrio diferente, uma perspectiva distorcida", explica Sólon. Fazer a mixagem no local foi importante porque os ângulos entre as caixas estavam fora de padrão, ou seja, foram dispostas em um retângulo largo, ao invés de estarem formando os ângulos clássicos do surround. Isso aconteceu porque, como o Museu Imperial é patrimônio histórico, as modificações no espaço tinham que ser mínimas, então a disposição das caixas precisou respeitar algumas limitações.
Sólon e Queiroz fizeram a mixagem primeiro no jardim inferior e depois subiram o computador com um Pro Tools 24 Mix para o pátio da frente do museu. Segundo Sólon, nessa etapa foi mais trabalhado o equilíbrio, sendo que os timbres e os volumes também foram um pouco alterados.

 
Oito caixas Meyer Sound foram colocados no pátio principal do espetáculo
 
A mixagem final levou um dia, mas a instalação de todo o equipamento de áudio demorou dois meses por causa do trabalho de cabeamento. Para o espetáculo foram instaladas 18 JBL Eon G2, oito caixas Meyer Sound MSL-4 e oito subwoofers 650-P, também da Meyer Sound. Sólon conta que escolheu as caixas da Meyer Sound devido ao seu sistema de proteção contra intempéries climáticas, além da alta qualidade, e as JBL pela facilidade de fazer manutenção e serem adequadas ao som ambiente. Devido a problemas de instalação elétrica, algumas JBL queimaram. É que a tensão, que deveria ser de 120V, chegou quase a 140V. "A tensão de rede do Palácio é de 380 volts de fase a fase, então isso cria problemas para conseguir uma tensão de 120V", explica o engenheiro. As caixas foram consertadas, e a rede, estabilizada para solucionar o caso.

História e tecnologia
O som foi copiado para um Fostex modelo D108, controlado por equipamentos da marca sueca Datatom. O áudio, a luz, a tela de água, as projeções, tudo é automatizado. "A idéia é que apenas um operador dispare o show e ele aconteça sozinho. O controle vai ficar na cabine de vídeo e, depois de acionado, ele é capaz de se desligar sozinho", explica Peter Lindquist, que fez a automação do sistema. Assim que a projeção começa a rodar todos os outros elementos do show são acionados por sensores. Como é gravado em 35mm, o filme não é sequenciável através do Time Code, por isso, segundo Lindquist, sincronizá-lo ao som e à luz foi a etapa mais difícil.
Para implantar todas essas tecnologias de som, luz e projeções foram usadas três toneladas de equipamentos e investidos quatro milhões de reais, patrocinados pela Fundação Roberto Marinho, Eletrobrás/Procel. E o trabalho valeu a pena. O Som & Luz traz com arte e tecnologia a história do Segundo Reinado até a Proclamação da República. É uma oportunidade para conhecer mais sobre o Brasil e ver um espetáculo original.

 
As caixas JBL precisam ser protegidas das intempéries climáticas
 
 
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