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Revista Luz & Cena
Caçando Mitos
Gravadores de Fita Analógica (Parte 1)
Uma irônica introdução a estes equipamentos
Fábio Henriques
Publicado em 07/09/2013 - 15h22

Prosseguindo em nossa análise de assuntos polêmicos, neste mês e no próximo iremos nos deter neste mecanismo de gravação que foi o mais utilizado durante aproximadamente 50 anos - entre 1948 e 1998: o gravador de fita analógica.

Independentemente das opiniões a respeito, contrárias e favoráveis, estas máquinas foram fundamentais na consolidação da música gravada e nos estúdios do mundo todo. Sua importância foi tão grande que considero fundamental a qualquer um que se aventure no áudio conhecer o seu funcionamento. Em parte, este conhecimento pode funcionar como uma forma de respeito e consideração (e até uma certa gratidão), já que se não fossem as fitas magnéticas não estaríamos neste ponto da tecnologia hoje. As dificuldades apresentadas por esta mídia eram tantas que levaram ao desenvolvimento de muitas técnicas e muitos dispositivos que acabaram contribuindo muito para o áudio como um todo.

Alguém pode até ser um pouco mais sarcástico e dizer que se as fitas analógicas não fossem tão complicadas, talvez o áudio digital ainda demorasse bem mais pra aparecer. Independentemente disso, o fato é que sempre aproveitamos este espaço para não só apresentar fatos, mas também para fornecer maior base teórica aos leitores. Por isso, vejamos, antes de mais nada, uma diferença fundamental entre áudio analógico e digital.

O BOLO DE CHOCOLATE

A primeira vez que escrevi profissionalmente sobre áudio, aqui mesmo na AM&T, lá pelo ano 2000, comentei justamente sobre esta metáfora. Acho que ela exemplifica muito bem o ponto que queremos abordar.

Imaginem que Joãozinho adora o bolo de chocolate que sua mãe, Dona Maria, faz. Apesar de morar sozinho, todo fim de semana ele faz questão de ir até a casa dela e saborear o quitute. Sua mãe é daquelas cozinheiras que conseguem fazer um bolo sempre com o mesmo capricho, e sempre com o mesmo inimitável sabor. Pois bem: certo dia Joãozinho é transferido no emprego para uma cidade a 1.000 km de distância, o que torna impraticável visitar sua mãe frequentemente. Como ele poderá fazer para conseguir comer o bolo de chocolate? A ideia de comprar um de outra pessoa nem passa por sua cabeça, pois a receita dela é única. Então, depois de muito pensar, ele vê que existem duas possibilidades.

A primeira maneira de conseguir comer o tal bolo é pedir que sua mãe o faça e, usando o melhor método possível, o envie para ele. Porém, para que o bolo chegue em perfeito estado, ela terá que se preocupar muito no modo como embalá-lo, por exemplo. Da mesma forma, precisará escolher um meio de transporte que o submeta ao menor castigo possível. Ou seja, o bolo que vai chegar a Joãozinho provavelmente não será exatamente o mesmo que saiu da casa de sua mãe: ele terá sofrido os efeitos da temperatura, dos solavancos da estrada e até mesmo da passagem do tempo. Por mais que ela capriche na embalagem e que a transportadora seja zelosa, o bolo ainda não será, ao chegar, exatamente o mesmo. Além disso, quanto melhor for a embalagem, o transporte e a rapidez, mais caro será enviar o bolo. Enviá-lo de helicóptero talvez fosse a melhor opção em termos de fidelidade, mas certamente a mais dispendiosa.

Porém, existe um outro jeito dele comer o bolo de chocolate. Como Dona Maria é muito meticulosa, ela sabe exatamente todas as quantidades de todos os ingredientes usados, e o processo que ela usa para cozinhar é bem controlado. Assim, ela é capaz de fazer uma receita extremamente precisa de como fazer o bolo e a enviar por e-mail para Joãozinho. Pronto. Agora, se ele tiver acesso a todos os ingredientes e cumprir com extrema precisão a receita, conseguirá fazer o bolo. Observem que a exatidão do gosto obtido está diretamente relacionada às duas condições acima. E, também, se sua mãe errou ao escrever a receita, confundindo algum valor, também haverá prejuízo do resultado final. Porém, ele poderá repetir o bolo quantas vezes quiser, deixando Dona Maria em paz pra conversar no Face com as amigas.



É bem desta forma que áudio analógico e áudio digital se comportam. Quando se transmite ou grava áudio analógico, a gente o está fazendo com a coisa em si. A informação passa diretamente de um ponto a outro. É como se estivéssemos enviando o bolo. Porém, este áudio sofrerá com as imperfeições que encontrar pelo caminho, ganhando distorção e ruído a cada equipamento por que passar. No final, se tudo correr bem, teremos um resultado que não é exatamente como o áudio original, mas pode ser aceitável. Para que este áudio seja muito parecido com o original, porém, temos que ter extremo cuidado com todo o processo, e, muito provavelmente, teremos que usar equipamentos muito caros.

No mundo da gravação analógica, a qualidade obtida era extremamente dependente do custo dos equipamentos. Um estúdio pequeno ("estúdio de oito canais") apresentava resultados bem piores do que um estúdio grande ("de 24 canais"). E, na verdade, esta diferença entre pequeno e grande não era de tamanho físico, mas de tamanho de investimento.

O áudio digital, porém, funciona como a segunda opção de Joãozinho. Ao converter uma informação analógica para digital, precisamos fazê-lo com a maior precisão possível, pois da qualidade de nossa "receita" dependerá a qualidade do produto final. Porém, não adianta sermos mais precisos que o necessário, pois dependemos tanto de quem vai executar a receita quanto da sensibilidade do paladar de Joãozinho. Por exemplo, se a quantidade de farinha especificada for 219,0005 gramas e a balança que Joãozinho usa tiver uma precisão de um grama, a balança que usamos para elaborar a receita foi desnecessariamente precisa. É mais ou menos como amostrar em 96 kHz quando 48 kHz é só o que se precisa.

Se a mãe de Joãozinho manda a receita por e-mail, certamente ela chegará certinha do outro lado. Assim, este método é imune aos problemas de transmissão. Ele inclusive tem um método de verificação: se lá do outro chegar "...arinh...", tanto se pode deduzir de que se trata de farinha ou ligar pra mãe e confirmar. Na transmissão digital são acrescentados dados que servem justamente como verificação de possíveis erros. E estes métodos são extremamente eficientes. Pra quem duvida, você já reparou que seu saldo de R$ 14,53 no internet banking nunca vem por engano como R$ 14.530,00? E que quando escrevo "escrevo" neste texto aqui em casa e mando pra revista ele nunca chega lá como "excrevo"? Pois é: o áudio digital - e a transmissão digital em geral - possuem como vantagem muito importante esta capacidade de evitar erros de armazenamento e transmissão.

Finalmente, Joãozinho tem que ser bem obediente e executar com perfeição a receita, usando os ingredientes exatos. Ou seja, a qualidade depende também da conversão de digital de volta para analógico. Assim como no bolo, o resultado certamente não será exatamente o mesmo do início, porém o grau de precisão é extremamente alto. Provavelmente a sensibilidade do paladar de João será insuficiente para detectar a diferença. E ainda há uma vantagem adicional: Joãozinho pode mexer na receita à vontade, testando muitos resultados possíveis, e sempre poderá voltar à receita original, o que nunca aconteceria se ele tivesse o bolo físico.

Em resumo, esta longa história serviu para exemplificar e deixar bem nítidos estes aspectos importantes. Vejamos o porquê.

POR QUE ÁUDIO DIGITAL?

Não sei se alguém já se perguntou (eu já), mas se a gravação em fita analógica era tão sensacional, por que diachos inventaram o áudio digital? O som não era "quente", envolvente, macio e tudo o mais?

Bom, existe a primeira possibilidade, que seria um "complô da burguesia capitalista que queria a todo custo ganhar muito mais dinheiro fazendo todo mundo comprar tudo de novo mesmo que com qualidade pior". Porém não é nada disso. O "proletariado" que trabalhava em estúdio sonhava sempre com menor chiado, menor distorção, maior compactabilidade, menores valores de wow e flutter, menor crosstalk, e coisas do gênero. Só o fato de se chegar no estúdio e não precisar gastar meia hora alinhando o gravador que foi alinhado ontem já seria sensacional. O povo em geral, por sua vez (as "massas"), mesmo ainda sem saber, certamente iria adorar poder ouvir áudio de qualidade nas mais diferentes situações e por um custo bem mais baixo, transmiti-lo pela internet etc. Os pobres dos músicos independentes e iniciantes iriam agradecer muito se o resultado que obtivessem em estúdios pequenos fosse da mesma qualidade dos grandes, e que não houvesse mais limitação de canais.


Ou seja, o áudio digital foi uma ótima novidade, exceto, talvez, pros mais arraigados às suas próprias limitações pessoais, e aos que, por natureza, temem a novidade.

UMA NOVA MÍDIA

Imaginemos que estamos em um mundo onde o áudio já tenha nascido digital. Nunca houve gramofones e nem fitas analógicas. Daí, eu, um brilhante inventor, apareço com uma novidade que acabei de inventar: o iNalog (pretendo vender pra Apple). Ele é um gravador muito legal, capaz de gravar 24 canais diferentes ao mesmo tempo, mas não pode passar deste limite. Pesa uns 50 kg, mede 1,20 x 0,80 x 0,80 m, consome uns 200 watts de potência (não funciona com baterias), mas dá um som maneiro. Quer dizer, isso se você alinhá-lo todos os dias, mas o alinhamento só consome uns 30 minutos. E tem a mídia. Nada de memória RAM ou pen drives e muito menos hard disk - estas coisas "frias" e sem vida. A mídia é uma fita de plástico bem fina coberta com uma pasta de cola e ferrugem. É nesta ferrugem que a informação será escrita, já que o método de gravação é magnético. Como a resposta em frequência vai depender da velocidade com que a fita roda, será preciso muuuuita fita. Assim, a mídia vem em rolos contendo mais ou menos 500 metros de comprimento, o que faz com que cada um pese uns 5 kg e tenha uns 30 cm de diâmetro. Eu sei que é volumoso, mas pelos menos com um rolo desses será possível gravar surpreendentes 16 minutos e 30 segundos de música!


Para que o iNalog funcione, é preciso transmitir o magnetismo para a fita, o que é feito por uma "cabeça" magnética, e esta transmissão é melhor se a fita estiver bem perto. Assim, o que se faz é esfregar a fita na cabeça. Ok, eu sei que isto provoca um enorme desgaste por atrito na cabeça, que irá piorando sua performance com o uso, enquanto que a fita também, cada vez que roda, perde um pouco de qualidade pelo mesmo motivo. Mas acho que isso não será problema, pois no vinil ocorre o mesmo problema e os audiófilos não se incomodam.

Tem também o crosstalk, que é o vazamento de um canal nos canais adjacentes (é difícil fazer o magnetismo ficar quietinho na sua trilha), e quanto mais grave a frequência, pior. Pra contrabalançar isso basta você se obrigar a gravar só coisas agudas entre as graves, tipo hihat-baixo-pratos. Além disso, todo mundo sabe como é complicado e caro fazer uma máquina que mantenha constante a velocidade de uma fita tão pesada, e a gente acaba tendo umas flutuações (wow e flutter) que provocam distorções que são pelo menos 100 vezes maiores que no digital. Mas, afinal, isso é que dá "vida" à coisa...

Finalmente, o fator mais importante: um iNalog vai custar apenas uns US$ 40 mil, e cada fita de boa qualidade uns US$ 150. Mas eu sei que qualquer um pagaria este preço pra ter um som analógico, não é mesmo?

Estou aceitando pedidos pro meu invento...

Mês que vem vamos ver de modo bem menos irônico as características dos gravadores analógicos, ok?

Fábio Henriques é engenheiro eletrônico e de gravação e autor dos Guias de Mixagem 1,2 e 3, lançados pela editora Música & Tecnologia. É responsável pelos produtos da gravadora canção Nova, onde atua como engenheiro de gravação e mixagem e produtor musical.
 
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