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Revista Luz & Cena
Sonorização
Trios elétricos com força total
Tecnologia e potência no som das máquinas que agitaram o carnaval de Salvador
Fernando Barros
Publicado em 24/5/2011 - 00h00
divulgação
 (divulgação)
O carnaval da Bahia, mais precisamente o de Salvador, é considerado a maior festa de participação popular do planeta. Uma celebração que movimenta mais de dois milhões de foliões, entre baianos e turistas de todo o mundo, além de 234 entidades divididas em 11 categorias diferentes cadastradas pela Saltur - Empresa Salvador Turismo, responsável pela organização e coordenação da festa. Entre elas estão, claro, os 45 blocos de trio elétrico responsáveis por arrastar as maiores multidões.

As origens dos trios datam dos anos 1950, quando a dupla Dodô e Osmar resolveu restaurar um velho Ford 1929 guardado na garagem. No Carnaval do mesmo ano, saíram às ruas tocando seus protótipos de instrumentos elétricos em cima do carro, com o som movido a alto-falantes.

O termo surgiu apenas no ano seguinte, quando a dupla convidou Temístocles Aragão para desfilar pelas ruas de Salvador a bordo de uma picape Chrysler cujas laterais traziam placas que anunciavam o recém-batizado Trio Elétrico.

O Desafio da Sustentabilidade

De lá para cá, o trio elétrico evoluiu tecnologicamente e se tornou uma importante fatia do mercado de áudio profissional, e não apenas na temporada do carnaval baiano. Por ser uma estrutura essencialmente autossuficiente e independente, os trios requerem um alto e permanente investimento em equipamentos, materiais e estrutura.

Há também trios que locam seus equipamentos ou parte deles para apresentações específicas ou são montados exclusivamente para atender ao carnaval de Salvador. São trios que geralmente não foram projetados para enfrentar as condições normais das estradas brasileiras, e que, por este motivo, são desmontados ou guardados após o carnaval.

Diferente dos trios elétricos, os camarotes e demais sistemas de sonorização comuns do carnaval são estruturas temporárias, e o som geralmente é alugado de empresas que já têm todo o material e o destinam a vários outros eventos durante o ano.

Samuel Monteiro, diretor de marketing da empresa Studio R, ressalta que o carnaval não é somente feito por trios. Seus amplificadores estão presentes também na sonorização de avenidas, desfiles de escolas de samba, bailes e shows. Até fora do país. "Estamos presentes em carnavais de países como a Holanda, onde acontece, nas ruas de Rotterdam e Arnhem, a Zomer Parade. Além de coincidir com o carnaval brasileiro, é uma festa com forte influência da nossa folia. Lá, inclusive, instalamos amplificadores Studio R em carros de som que parecem ser inspirados nos trios elétricos", comemora.


 
CRÉDITO: Max Haack

A sustentabilidade dos trios como um negócio geralmente depende da capacidade de permanecer ativo durante todo o ano. "E aí vale qualquer negócio, de micaretas até rodeios. Das festas de faculdade até campanhas políticas, desde que a lei permita", afirma Samuel.

Micka Bahia, técnico de som da equipe Axé & Cia, confirma, destacando que a "firma" não para. "Durante todo o ano fazemos festas tipo micaretas, festas de camisas e eventos de prefeituras, entre outros". Seu colega de profissão, Vandernilson Vieira da Silva, conta que o seu trio Mamute também trabalha o tempo todo, tendo sido cotado para grandes micaretas, como a de Feira de Santana, Pré-Caju, Fortal e muitos outros eventos de nível nacional.

Samuel explica que esta versatilidade se deve ao fato de que os trios já são literalmente um palco de shows e PA completo e itinerante. "Um fato curioso é que na época dos apagões de energia era difícil encontrar trios disponíveis para locação, já que estavam sendo altamente requisitados por conta, principalmente, de seus geradores. Acreditamos se tratar de um bom mercado, com inúmeras possibilidades", aposta o diretor.


Alta Potência
CRÉDITO: Max Haack

Samuel Monteiro conta que a Studio R está presente no mercado de carnaval desde o início da marca. "Nossos primeiros amplificadores com a marca Studio R, como o Jari e o AX, já equipavam trios das antigas, como o Crocodilo, produzido pelo célebre João Américo, que ganhava todos os embates de trios de seu tempo". Mesmo antes de fundar a Studio R, quando Ruy Monteiro ainda era um dos proprietários e projetista da Micrologic e da primeira fase da Nashville, seus projetos, como o amplificador M-1000 e NA-2200, já equipavam muitos trios.

Apesar de sua presença em pelo menos 14 trios do carnaval brasileiro, o diretor diz que é difícil quantificar o alcance da marca em todos os eventos. Ele explica que soube de produtos Studio R disponibilizados para o camarote da cantora Ivete Sangalo, por exemplo, por pertencerem à locadora responsável na ocasião. "No caso dos trios, é muito diferente, pois apesar da venda ser feita através de lojas, nós somos sempre solicitados a dar um acompanhamento técnico de montagem e dimensionamento, já que um trio é sempre uma aplicação mais crítica e, muitas vezes, com soluções de estrutura experimentais", argumenta.

Entre os trios sonorizados por sua empresa, ele destaca o da cantora Claudia Leitte, que inova justamente pela utilização de caixas line array em parte de seu sistema, o que não é tradicional e nem convencional em trios, e pelo uso de amplificadores da Série X, de altíssima potência, como o X12. "Já o trio Cheiro de Amor optou pelos amplificadores de nossa outra marca, a Nashville, que proporcionou um resultado bastante positivo".

O trio da Banda Eva, um dos mais elogiados da avenida, usou amplificadores Studio R da Série X, Série Z e da linha Heavy Duty, já com mais de 10 anos de bom cumprimento de suas funções. "Na época de sua construção, o trio revolucionou o mercado com uma estrutura de caixas móveis laterais que permitia sua expansão e um aproveitamento sem igual, tanto do palco quanto do camarim, além de um sistema pneumático de projeção do PA de frente e fundo que se tornou praticamente padrão nos trios modernos", revela Samuel.

 
CRÉDITO: Max Haack

Características como dimensões reduzidas, leveza e baixo consumo de energia mesmo em altíssimas potências são extremamente atraentes para trios, pois se traduzem em maior eficiência e praticidade em transporte e alimentação. "Se o amplificador dá a maior potência e qualidade possível por quilo e por centímetro cúbico e ainda por cima facilita a vida e o dimensionamento do gerador, ele é ideal para um trio. Mas isso de nada adianta se o amplificador não for confiável e durável", comenta Samuel.

A segurança é outro aspecto importante quando se trata de trios elétricos e multidões, por isso normas e certificações de qualidade e segurança são indispensáveis. "Todos pudemos presenciar em ocorrências recentes que problemas em um trio podem acabar em tragédia. E a responsabilidade geralmente é toda dos produtores dos trios ou do evento. Se estes estiverem utilizando equipamentos em seus trios ou mesmo contratando trios fora de conformidade com estas questões de segurança, as coisas podem ficar muito feias", alerta o diretor.


Estruturas Autossuficientes

Por se tratarem de veículos autossuficientes, os trios elétricos devem carregar seus próprios geradores de energia elétrica. E por mais eficientes que sejam os equipamentos de som, alguns trios simplesmente carregam tanta potência e tantos artefatos eletrônicos (do potente ar-condicionado do camarim até os feixes de raio laser e painéis de LED) que precisam abrigar verdadeiras usinas de força em seu interior. Sem esquecer-se do backup para tudo isso.

Samuel acredita que a geração de energia vem com o tempo se tornando um dos principais desafios técnicos e focos de investimento nos trios elétricos. "Mesmo se um dia amplificadores forem capazes de atingir 100% de eficiência, a carência geral de energia ainda será altíssima. Muita coisa terá de mudar e evoluir antes de se tornar algo simples ou sustentável neste sentido", completa.

Além da preocupação com a energia, os veículos são construídos considerando pontos como força e durabilidade. "Compramos uma prancha de carregar trator e em cima dela é feita a carroceria do trio. Quanto ao cavalinho que puxa o trio, não é feito nada, porque já tem um apropriado para esse tipo de carga", explica Micka Bahia, técnico da Axé & Cia e responsável pelo trio Tranformer, que atende à cantora Claudia Leitte.

No Transformer, foram instalados sistemas FZ Áudio nos line arrays e monitores. Subwoofers construídos com alto-falantes Selenium e caixas L60 ficaram responsáveis pela cobertura de graves. Foram também peças fundamentais o divisor de frequência Dolby Lake, o console Digidesign Venue SC48 e dois geradores de energia 230 KVA.

 
CRÉDITO: Divulgação

Jeová Santana há 12 anos faz parte da equipe do Axé & Cia e atualmente é responsável técnico pelo Trio Axé & Cia I, que trouxe à frente a Banda Eva no carnaval de Salvador 2011. Ele conta que foram utilizados os consoles Yamaha PM5D RH para o PA e Digidesign Venue SC48 para monitor. "Na sonorização, foram utilizados 66 amplificadores Studio R. Nas laterais do trio foram 80 falantes de graves, 72 falantes de médio grave e 48 drivers de titânio. Na frente e no fundo, 96 falantes de graves, 64 falantes médios graves e 48 drivers de titânio", enumera o técnico, que complementa dizendo que monitores FZ Áudio, DAS, subwoofers de bateria, além de diversos fones de ouvido, foram utilizados como retorno. Os projetos de caixas de som do trio foram elaborados por Carlos Correia, da Selenium, e Robério Oliveira, proprietário dos trios.

O trio Mamute Cheiro de Amor foi totalmente modificado este ano para adquirir mais espaço físico e obter melhorias no áudio e em termos de energia. "Contamos com a ajuda de Alex, que nos auxiliou na parte de geradores e elétrica. O projeto das caixas de graves e médias ficou por conta do técnico Guto, auxiliado pelo conhecimento de alinhamento do nosso também técnico Saracura", diz Vandernilson, responsável pelo trio. O Mamute utilizou amplificadores NA3300, NA6400, Nashville e XD e X12Studio R. Nele também foram instaladas uma mesa Digidesign, uma Yamaha M7CL e processadores Lake.

Samuel Monteiro enfatiza que, no caso de trios de renome, já não se pode dizer que a festa gira em torno de veículos modificados, como o sofrido Ford 1929 do tempo de Dodô e Osmar. "São estruturas inteiramente concebidas do zero para aquele fim. E são principalmente estes os trios que nós, que trabalhamos com som, temos acompanhado e ajudado a conceber", conclui.
 
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