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quinta-feira, 1 de março de 2007
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Apenas 20 entre mil - 2ª parte
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por Fernando Barros
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Vavá Furquim
No começo dos anos setenta, sem muita preocupação Vavá Furquim cursava o colegial e, como todo adolescente, começou a se envolver com uma galera que gostava de música. "Nessa época era ler Pasquim, Rolling Stone, assistir a Sábado Som e esperar pelas temporadas de verão em Salvador".
Mas a vida mansa não durou muito. Pouco depois, Vavá já estava viajando pelo interior da Bahia como técnico da banda Mar Revolto. Vavá largou de vez a faculdade de agronomia, e com ajuda de seu pai comprou com o Mar Revolto o primeiro sistema de PA de Salvador. "O equipamento era um Ookpik Snake igual ao de Rita Lee."
A banda partiu rumo ao Rio de Janeiro e Vavá ficou, mas não em vão. Nesta época, conheceu João Américo e Carlos Correia, dois grandes incentivadores. "Trabalhar junto a João Américo para muitos músicos importantes me deu visibilidade para ser descoberto por Alceu Valença, o artista que me jogou no mundo e com quem trabalhei por quase onze anos".
Vavá relembra com carinho de outros artistas que passaram por sua vida. "Vieram vários de igual importância na minha trajetória como Djavan, Carlinhos Brown, Daniela Mercury e Caetano Veloso". Desde 1999 Vavá Furquim é o supervisor técnico responsável pela sonorização do Festival de Verão em Salvador.
Há 20 anos: Alceu estava revendo sua carreira, e neste ano trabalhou muito pouco. Pela primeira vez senti a falta do trabalho, então ser um freelancer foi a solução, consegui trabalhar no monitor do Free Jazz. Só isso já me deu algum fôlego para ver meu segundo filho, Gabriel, nascer e ir à minha primeira convenção da AES junto com Carlos Correia.
Daqui a 20 anos: Se não estiver trabalhando com áudio, quero estar ouvindo uma boa música.
Jorge Dias
O chefe de cozinha e técnico de som Jorge Dias começou na época dos bailes com Lafayette e seu conjunto, foi responsável pelos shows da banda por oito anos até se juntar aos Famks, o conjunto que deu origem ao Roupa Nova, com quem ficou mais 13 anos. "Foi quando conheci Framklim Garrido e passei a estudar eletrônica, eletroacústica e me desenvolver mais. Praticamente tudo que eu aprendi de teoria de áudio foi com ele."
Sem abandonar as turnês, ele trabalhou 17 anos no carnaval baiano em trios elétricos. Além do Roupa Nova, vários nomes passaram por sua vida profissional: Erasmo Carlos, Wanderléa, The Fevers e Golden Boys, Guilherme Arantes, Fábio Júnior, João Bosco, Tom Jobim, Toquinho e Maurício Manieri, com quem está até hoje. "Ele é um artista que eu admiro muito, ele é muito competente, canta e toca muito!".
Há 20 anos: Eu estava com Roupa Nova, na verdade, eu estava fazendo bailes com os Famks.
Daqui a 20 anos: Eu pretendo trabalhar mais uns cinco anos com áudio, porque agora eu quero investir em culinária. Eu gosto muito e leio a culinária do mundo inteiro. Trabalhei um período como chefe de cozinha num restaurante espanhol. Minha especialidade são os frutos do mar. Daqui a 20 anos eu pretendo ter o meu negócio, trabalhar com cozinha italiana, francesa e espanhola.
Ricardo Vidal
Ricardo Vidal afirma que tudo começou como uma brincadeira. "Metido a músico, não ficava satisfeito com os sons que faziam para mim". Por isso resolveu encarar o desafio de aprender e trabalhar na parte técnica do áudio. Primeiro entrou como assistente para o estúdio LCB Gravações, na cidade de Santa Rosa, Rio Grande do Sul, e logo depois foi "carregar caixas e trabalhar na empresa Viger Som e Luz em Pelotas".
Mais tarde, Ricardo acompanhou a banda Razão Brasileira durante três anos e meio até se tornar técnico de som do grupo O Rappa, com quem está há 11 anos. Neste meio tempo, ele manteve em paralelo seu trabalho como produtor musical de diversas bandas do sul, além de ter seu próprio estúdio em Camboriú, Santa Catarina.
Há 20 anos: Eu estava correndo atrás dos exemplares como o jornalzinho da M&T. Era muito difícil para nós, do interior, termos acesso aos primeiros exemplares. Também ficava sonhando em ter estúdio próprio.
Daqui a 20 anos: Pretendo continuar com o mesmo pique de trabalho na estrada, e com melhores condições nos locais onde forem feitas as apresentações musicais. Produzir bandas novas e o mais importante, não ficar surdo.
Flávio Senna
Flávio Senna, o homem que nunca descansa, está fazendo neste ano 34 anos de profissão e não pensa em aposentadoria. "Nesses anos eu devo ter tirado três meses de férias. Realmente eu não paro e não quero parar". Depois de 17 anos nos estúdios da RCA, onde teve a oportunidade de trabalhar com quase todos os artistas da gravadora, Flávio partiu para novas experiências.
Acompanhou o Roupa Nova tanto no estúdio quanto na estrada. "Aprendi muito com eles. Eu tenho carinho por eles como pessoas e admiração como artistas". Em paralelo, Flávio e alguns sócios compraram os antigos estúdios da RCA, e depois da BMG - Ariola, para fundar, no início dos anos 90, a Companhia dos Técnicos, onde trabalha até hoje. "Eu nunca pensei em ter um home studio. Sempre achei que quando eu fosse ter um estúdio teria que ser grande. A idéia era não fechar portas e deixar sempre lugares pra podermos trabalhar".
Apesar de adorar a estrada, nos últimos anos, Flávio optou em parar de operar PA por completa falta de tempo. Hoje em dia ele tem feito gravações de DVD e CDs em diversos estúdios. "Eu sou uma pessoa tranqüila, gosto de estar com as pessoas trocando idéias e informações. Sou bem recebido em todos os lugares".
Há 20 anos: Eu estava trabalhando com o Roupa Nova, no estúdio deles e na estrada.
Daqui a 20 anos: Pretendo estar gravando ou pelo menos mixando. Não penso em aposentadoria. Não quero atrapalhar ninguém, mas enquanto eu me sentir útil e tiver vontade de ficar no estúdio, ler manuais e pesquisar coisas novas, eu quero trabalhar.
Evaldo Luna
Em seu início de carreira, a exemplo de Ronaldo Ribeiro e Nivaldo Costa, Evaldo Luna também trabalhou com praticamente todas as grandes bandas dos anos 80 no Radar Tantã e no Aeroanta em São Paulo. Já na década de 90 e 2000, foi técnico de PA dos Titãs, Fernanda Abreu, Zeca Baleiro, Carlinhos Brown, Paralamas do Sucesso, Adriana Calcanhotto e muitos outros.
Entre seus últimos trabalhos estão a produção e mixagem do CD Final dos tempos... aos novos tempos, com os MCs Zulu & Buia, mixagem dos CDs Projeto Criolina, Nilson Chaves e Vanessa Bumagni, gravação do CD de Mariana Aydar, e a gravação para o longa-metragem de Lais Bodansky Chega de saudade, ambos produzidos por BiD. Ainda em 2006 Evaldo, o multi-homem, produziu, gravou e mixou o CD do Fernando Vidal.
Há 20 anos: Eu ralava muito, trabalhando em uma locadora de áudio de porte médio, a Level. As condições eram terríveis, nunca tinha carregador, a maioria dos equipamentos dava bastante manutenção. A grana era curta e o trabalho árduo. O que valeu foi a experiência adquirida e o famoso 'leite de pedra', que era tirar um bom som com aquele sistema. E, também por isso, sei valorizar o trabalho dos funcionários das locadoras que me atendem hoje, procuro não complicar as coisas.
Daqui a 20 anos: Tenho vontade de ter um programa de rádio numa cidade pequena, onde eu possa tocar musica boa pras pessoas ouvirem. Tenho uma coleção (não muito grande) de CDs, vinis, e 78 rotações, e gostaria de dividi-la com outras pessoas.
Liminha
Arnolpho Lima Filho formou sua primeira banda aos dez anos de idade. Na época em que o rock psicodélico estava em alta, fez parte de muitos grupos, como a Companhia Paulista de Rock, Lunáticos, Baobás e Mutantes. Nos anos 80, Liminha se destacou no mercado brasileiro produzindo várias bandas do rock nacional, Kid Abelha e Ultraje a Rigor, Lulu Santos, Gilberto Gil, Gabriel, O Pensador e Fernanda Abreu.
Na década seguinte, viveu na ponte aérea Brasil - Estados Unidos e lá conheceu diversos produtores, técnicos e artistas. Foi diretor artístico da gravadora Sony Music e, em 2001, formou o conjunto de surf music The Silvas, tocando guitarra ao lado do baterista João Barone.
Além de tudo, ele ainda é sócio do estúdio Nas Nuvens, localizado no Rio de Janeiro, por onde passaram inúmeros grandes nomes, inclusive presentes nesta lista.
Fábio Henriques
O engenheiro de som Fábio Henriques entrou na profissão há 14 anos, "já meio velho pra carreira, aos 31", fazendo um curso de Recording Engineering (engenharia de gravação) na The Recording Workshop, nos EUA. "Fui apenas pra matar a vontade de saber como gravar, e estava satisfeito prosseguindo na minha carreira de engenheiro eletrônico, quando vi uma matéria no jornal sobre o Discover - o primeiro estúdio a gravar em Pro Tools no Brasil". Como tinha aprendido a usar software na escola americana, pediu um estágio no estúdio carioca, onde conheceu Guilherme Reis. "Tive a felicidade de cair no lugar certo, com as pessoas certas e com grandes artistas gravando. Em pouquíssimo tempo estava só trabalhando com áudio."
Um ano depois, junto com Mayrton Bahia e Sergio Benevenuto (Escola Rio Música) iniciou um dos primeiros cursos formais de áudio no país, por onde passaram mais de 600 pessoas.
Ao longo dos anos, Fábio passou por estúdios como o Discover, o AR e o Nas Nuvens. "Durante estes mais de 150 CDs foi muito bom ver como a nossa carreira evoluiu, como os profissionais puderam trocar mais informações. Começamos a fazer caravanas para os congressos da AES, testemunhamos a fundação do escritório brasileiro e dos congressos regionais. Estou muito feliz em ver como a nossa carreira evoluiu em termos de respeito e credibilidade, embora ainda lutemos por tantas coisas."
Fábio comemora ainda o "momento revolucionário da tecnologia", como diz. "Mesmo com todos os problemas que este avanço acelerado vem trazendo, ele era inevitável e só precisamos é de capacidade de adaptação e disposição para aprender sempre", afirma.
Atualmente ele é o responsável pelas gravações da gravadora católica Canção Nova. "A música católica deu um salto de qualidade substancial nos últimos anos e me sinto muito feliz em estar contribuindo pra isso", diz ele, que lança, neste mês, pela editora Música & Tecnologia, o livro Guia de Mixagem.
Há 20 anos: Trabalhava em uma empresa de telecomunicações, fazendo simulação de circuitos de telefonia em computador. Eu usava um computador com o poderosíssimo (para a época) processador 8085 e programava em Assembler. Nem achava possível um dia trabalhar em estúdio.
Daqui a 20 anos: Espero estar escrevendo para a M&T em um notebook dentro do meu celular através de comando de voz, em uma casa de praia, esperando apenas a minha única decisão importante do dia - o cardápio do almoço. Quem sabe será um livro sobre a evolução da tecnologia do áudio e sobre o saudosismo do pessoal, todo mundo achando que bom mesmo era o áudio de 44kHz 16 bits. Nesta hora vou desenterrar meu Adat cara preta que guardo em uma caixa selada desde 1997 e ganhar um dinheirão!
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