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Edição #185
fevereiro de 2007

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segunda-feira, 29 de janeiro de 2007
 CAPA - PARTE 2 voltar 
Som direto em cinema - continuação por Lyana Peck Guimarães
Luz, câmera, captação
Posicionando o microfone

Outra unanimidade quanto à realização de um som direto de qualidade é o correto posicionamento do microfone. Não há regra fixa, pois "tudo depende do enquadramento e também do que você está fazendo", diz Tide Borges. Mas, em termos gerais, Leandro Lima diz: "O microfone deve ficar a um ângulo de 45°, posicionado entre a boca e o tórax, o mais próximo possível da fonte".

Tide lembra que o posicionamento depende do formato da gravação. "Cinema é uma coisa, televisão e publicidade é um pouco diferente, porque normalmente as pessoas querem a voz em primeiro plano sempre. No longa-metragem existe essa questão de você ter o plano de som parecido com o plano da imagem, ter uma relação." Assim, quando a câmera aproxima, tanto fisicamente ou por uso de lentes, o som também aproxima. É o que se chama de "sensação espacial".

Com isso, o técnico de som direto e o diretor de fotografia precisam trabalhar em conjunto, pois é o fotógrafo que escolhe, junto com o diretor, o enquadramento do que é filmado, e a partir disso o técnico faz o posicionamento. Como o ideal é estar o mais próximo possível da fonte, isto é, dos atores, costuma-se dizer que se posiciona o microfone "no limite do quadro", o que significa o microfone estar o mais próximo, sem aparecer no enquadramento da câmera.

Além disso, há a questão da sombra gerada pelo microfonista. "O nosso trabalho tem uma relação estreita com a fotografia. Você não pode fazer sombra, não pode aparecer no quadro. Tem que trabalhar com a movimentação dos atores, com a marcação dos atores, saber o texto, quem fala quando, etc.".

Portanto, peça-chave no som direto é o microfonista. "Com os microfones direcionais você tem um ângulo para trabalhar com relação à fonte, senão é o que a gente diz que está "fora do eixo do microfone". Desta maneira, você perde algumas freqüências, a começar pelas altas, deixando o som abafado. Então tem que trabalhar com um microfonista que tenha experiência, porque tem movimentação, e não pode fazer sombra. É bem diferente do pessoal que trabalha com estúdio, com música", diz Tide Borges.

Às vezes é preciso sair da regra para fazer um bom som. Leandro conta que tem utilizado nos seus últimos filmes microfones plantados em posições estratégicas, "em locais a que o microfonista não conseguiria chegar por causa da sombra ou do enquadramento". Assim, ele diz poder "fugir do lapela", e manter "uma continuidade sonora e uma captação mais linear".

Fazer tais experimentos pode ser arriscado, mas com o multipista podem-se gravar diversas fontes ao mesmo tempo. O que serve de segurança para muitos, para Valéria é uma possibilidade de criação. "Por eu fazer muito documentário, mesmo quando faço ficção sempre tento ter uma abordagem de captação meio documental. É preciso explorar os sons que estão acontecendo. Às vezes limpo tudo, faço aquele som direto muito limpinho e depois vou colocar os sons ambientes, de porta, por exemplo. Eu gosto muito quando o som já vai meio mixado, quando o barulho da porta já faz parte do som direto. Então de repente você coloca um mic na porta só para captar esse barulho. Está tudo na cena. E o HD é maravilhoso por isso, porque você pode microfonar tudo. Você fica requintando, te abre possibilidades de trabalhar o som como um todo, microfonando o espaço."

Relação com os demais departamentos

Não é somente com o fotógrafo que o técnico de som precisa ter um bom relacionamento profissional. Cenógrafos e figurinistas também precisam ser consultados. "Eu normalmente converso com o figurinista antes de começar o filme. Eu não condeno um vestido, mas pelo menos eu vou prevenida. Tem uns tecidos que derrubam o som, como o tafetá. Eu também não gosto de interferir na interpretação do ator, falando para não se mexer muito para não fazer barulho no lapela. O cara está ali para atuar e não para tomar conta de roupa", diz Zezé D'Alice.

O problema acontece quando o tecido da roupa dos atores é importante para a história do filme, como no caso dos filmes de época. "Daí a gente corre o risco, podendo ter que dublar depois. Como os diretores normalmente não gostam de dublar, eles preferem trocar o tecido ou dar outro jeito."

Para Valéria, o ideal é conversar com a equipe antes da filmagem, em uma etapa da produção em que ainda seja possível fazer alterações. "Mas muitas vezes o técnico de som chega num momento da produção em que o cenário já está em andamento, quando já está tudo definido, aí você tem pouca interferência nesse aspecto. Aí tem que buscar outras soluções".

A escolha da locação também é importante. Valéria conta que uma semana antes da gravação, as locações já estão escolhidas. "Você pode dizer que a locação é péssima para o som, mas aí não tem mais como mudar. O ideal é o técnico acompanhar a escolha das locações. É raro. São poucas as produções em que você consegue esse esquema ideal".

Para fazer um bom som direto

Para Bié e Tide, não adianta ter um grande equipamento e uma grande equipe se o técnico de som não tiver um bom ouvido. "Seu ouvido e seu cérebro são seus instrumentos, para você julgar se o som está bom ou não. A gente tem que confiar no ouvido. Tem que ter um bom fone e confiar no próprio julgamento. Conversar com as pessoas. Se você achar que não está bom, que não está satisfatório, você tem que comunicar às pessoas, à direção. Tem que ficar atento para não deixar passar essas coisas", diz a técnica.

A atenção ao som também é importante para um bom som direto. É preciso ficar atento aos sons ambientes, e registrá-los, para inclusão posterior na edição de som. Para Romeu Quinto, "é muito importante que não se esqueça jamais dos fundos para homogeneizar a edição. Esse é o mais importante de tudo. É o background, para que você não tenha pulos, para não se perceberem os cortes".

Para Zezé, ter a percepção do que é bom ou não para o som, e saber como solucionar, é algo que só a experiência profissional pode fazer. "Acho que, primeiro, se a pessoa quer fazer som, tem que tentar ir pro set o máximo que puder, porque a coisa teórica é uma coisa, mas o bicho pega mesmo é no set. Você vai saber o que acontece quando você está num filme".

Ter silêncio no set de filmagem é fundamental para um bom som. "O platô (que é quem organiza o set) precisa ser bom, pois é o nosso aliado para controlar o nível de ruído ambiente", disse Leandro Lima. Além disso, o trabalho com o diretor também é importante "na criação da concepção sonora do filme, até para a escolha dos microfones que você vai usar".

Tal colaboração no set foi lembrada por Sílvio Da-Rin como fator fundamental para um bom som. "Não existem soluções mágicas envolvidas na captação de um bom som. O determinante para isso é conquistar a colaboração do diretor e dos chefes dos departamentos que compõem a produção de um filme."

Quem é quem

Conheça que está por trás de alguns dos principais filmes nacionais dos últimos tempos:

Leandro Lima: Carioca de 27 anos, começou como assistente de Zezé D'Alice quando tinha 19. Em pouco tempo começou a realizar trabalhos como técnico de som direto, tendo no seu currículo importantes produções, como Diários de Motocicleta, Cidade Baixa e Coisa mais linda, com o qual recebeu o Prêmio de Melhor Som Direto no 10° Festival de Cinema de Miami em 2004.

Valéria Ferro: Seus primeiros trabalhos foram em São Paulo, no início dos anos 80, e atualmente ela vive no Rio. É conhecida principalmente por seus trabalhos em documentários. Na sua filmografia está Edifício Master, Baile Perfumado e Dois Filhos de Francisco, com o qual ganhou o Prêmio de Melhor Som Direto da Academia Brasileira de Cinematografia em 2006.

Romeu Quinto: Um dos mais antigos técnicos de som direto do Brasil, começou no cinema no final dos anos 60. São mais de 30 longas-metragens de ficção em sua filmografia, incluindo Bicho de Sete Cabeças, Durval Discos e Carandiru. Com este último ele ganhou o Prêmio de Melhor Som Direto da Academia Brasileira de Cinematografia em 2004.

Tide Borges: Estudou cinema na Escola de Comunicação da USP, começando a trabalhar com som nos anos 80. Atualmente também acompanha processo de edição de som dos filmes que faz o som direto. Tem como braço direto a técnica de som Lia Camargo, com quem assinou diversos projetos.

Silvio Da-Rin: Com mestrado em Comunicação Social pela UFRJ, Silvio é conhecido não somente pelo seu trabalho em som direto, mas também por estudo acadêmico, com foco em documentário e linguagem cinematográfica. Em sua cinematografia estão O Pequeno Dicionário Amoroso, Mauá - O Imperador e o Rei, Quase Dois Irmãos, entre muitos outros.

Bié Gomes: Trabalhou pouco em som direto em cinema, se estabelecendo no mercado publicitário. Mas é um dos principais profissionais do país, e um dos maiores possuidores de equipamento, sendo, assim, um dos poucos locadores de equipamentos de som.

Juarez Dagoberto: Começou nos anos 50, na época da Vera Cruz. São mais de 200 filmes com som feito por ele, clássicos como Macunaíma, O Pagador de promessas e Eles não usam black-tie. Foi um dos pioneiros na defesa da qualidade do som no cinema.

Zezé D'Alice: Foi assistente de Juarez em 30 longas-metragens, assinando o som em 1982, no filme O homem de capa preta, de Sérgio Rezende. Também atua no mercado publicitário, tendo realizado mais de mil comerciais. Na televisão, foi responsável pelo som de séries da TV Globo feitas em película, como A Justiceira. Alguns dos seus filmes são A Partilha, O Auto da Compadecida, Cazuza e Se eu fosse você.

Por conta do final de ano, e por muitos profissionais estarem ocupados em gravações durante a realização desta matéria, alguns importantes nomes ficaram de fora, como Jorge Saldanha, Renato Calaça e Toninho Muricy. M&T agradece a atenção dada por eles, e espera poder contar com seus depoimentos para a próxima edição.
   
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