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Edição #184
janeiro de 2007

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segunda-feira, 8 de janeiro de 2007
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Review por equipe M&T
Não só pra gringo ver

Chico César pode parecer um artista-de-uma-música-só aqui no Brasil, com o seu sucesso Mama África. Mas lá fora sua carreira é bem mais conhecida e reconhecida. Nos últimos dez anos o cantor e compositor foi figurinha fácil em festivais e casas de show na Europa, onde ele podia mostrar seu trabalho sem o peso do hit chiclete nas costas. Afinal, quem é que não conhece por aqui os versos Mama áfrica (a minha mãe), é mãe solteira. E tem que fazer mamadeira todo o dia. Além de trabalhar como empacotadeira nas Casas Bahia?

Agora fazendo parte do casting da Biscoito Fino, Chico César deixa bem claro que é capaz de bem mais do que isso. Seu primeiro e recém lançado DVD Cantos e encontros de uns tempos pra cá é uma grande produção, tanto sonora quanto visual. Contando com um quinteto de cordas, flauta e percussão, e Chico na voz e violão, ele faz uma revisão do seu repertório com uma bela roupagem, com direito ainda a canções inéditas e releituras, como a de Cálice, de Chico Buarque.

O DVD é um desdobramento visual do álbum De uns tempos pra cá, lançado no ano passado. A fotografia de Caio Berti e Bruno Lima e o projeto de luz de Marisa Bentivegna são perfeitos para o clima sugerido pelo arranjo das músicas: ao mesmo tempo erudito e regional. É tudo muito elegante e pulsante. E o cenário de Mika Lins, Cássio Brasil e Sérgio Glasberg corrobora com essa máxima.

Mas tudo isso só é um pano de fundo para a estética sonora do show. O Quinteto de Cordas da Paraíba deu às composições de Chico César um ar de música de câmara, quase medieval. Mas os violinos não deixam de fazer alusão às rabecas nordestinas, dando o tom de regionalismo típico no som de Chico. Além disso, a percussão/bateria de Simone Soul foi essencial para a sonoridade. Não é à toa que Simone é uma das melhores percussionistas atualmente no Brasil. E a flauta de Simone Julian também me fez lembrar as flautinhas de madeiras típicas de maracatu. Muito bonito.

Todo esse som pode ser apreciado em mix Dolby estéreo ou Dolby Digital 5.1, realizada nos Estúdios Mega por Egidio Conde e Kbelo. A gravação ao vivo também foi feita pelos dois técnicos, além de gravações adicionais nos estúdios Biscoito Fino do Rio e São Paulo. A direção musical é do próprio Chico.  (Lyana Peck Guimarães)


Flores para Morrissey

A dura missão de se livrar da sombra dos Smiths faz de Morrissey um verdadeiro guerreiro. Seu trabalho mais recente, Ringleader of the tormentors, é mais uma de suas tentativas. A oitava em 16 anos de carreira solo e talvez a melhor delas até agora.

No álbum, lançado no Brasil pela paulista Trama, o ex-líder de uma das bandas mais aclamadas dos anos 80 aparece um pouco mais flexível como compositor e, principalmente, como letrista. Morando em Roma, na Itália, depois de um longo período em Los Angeles, ele mostra o quanto a vida em um novo lar pode influenciar no comportamento de um homem.  Tanto é que em Dear God, Please Help Me, uma das canções mais bacanas do disco, Morrissey diz que caminha pela cidade solitariamente com seu violino, sem se abalar. Aliás, na capa do CD, lá está ele com o instrumento, dentro de um belo traje de gala.

A grande diferença entre esse e seus demais álbuns solo é que, dessa vez, Morrissey deixou as tradicionais guitarras de lado, optando por fazê-las soar de forma diferente. Longe do clima rockabilly de costume, ele investe em uma linguagem a la Bowie, e lembra, até mesmo, algumas coisas do Roxy Music, de Brian Ferry. Reparem só na faixa de abertura, I Will See You In Far Off Places.

Mas nada disso é por acaso. Tony Visconti, que, produziu o camaleão nos anos 60, é quem assina o trabalho. As cordas, outra presença constante em boa parte das canções, são méritos do maestro e arranjador Ennio Morricone. É dele também o fantástico piano de Dear God, Please Help Me.

Lançado na Europa, em abril, Ringleader of the Tormentors arrancou elogios da crítica especializada e chegou ao primeiro lugar das paradas inglesas contabilizando vendas virtuais de 62.000 exemplares em apenas uma semana.

You Have Killed Me, single do disco, também estreou bem: na 3º posição. Agora é a vez de In The Future When All's Well chegar ao dial europeu. Por aqui, a gente vai curtindo o som do cara em casa mesmo, já que as rádios só têm aberto espaço pros meninos da tal modinha emo. (Rodrigo Sabatinelli)

 

Big Band de Big Joe ao Vivo

Quando soam os primeiros riffs de La Grange (Billy Gibbons), tem-se a impressão de que alguém pôs pra tocar o DVD de algum clássico crioulo americano. Mas, como DVDs têm imagem, a possível confusão logo se dissipa: o cara não é americano, é brasileiro e de epiderme bastante clara! E não está atuando num fumacento bar em Chicago e sim no bar Privilège, em Juiz de Fora, no estado de Minas Gerais! É Big Joe Manfra, um dos maiores blueseiros da nossa terra, lançado pala Blues Time.

Com um vozeirão à altura de seu físico respeitável e sons de guitarra que não ficam nada a dever, segue-se um desfile de clássicos do blues, R&B e rockabilly pra ninguém botar defeito. Big Joe ataca com sua Stratocaster Steve Ray Vaughan, de sonoridade semelhante à do guitarrista desaparecido, mas com estilo pessoal e particularmente agradável. A guitarra, nas mãos de Big Joe, se retorce, geme, canta e chora, mas jamais se esganiça. É a marca de um bluesman verdadeiro, que sabe escolher o instrumento, as cordas, os efeitos e a amplificação.

Em Red House, o tributo a Hendrix é um dos pontos altos do show, com uma demonstração impressionante de técnicas de guitarra que incluem o sustain infinito, mas usando os dedos e não o feedback. À altura de Jimi, sem imitá-lo. Falando em guitarra, a única exceção é I'll Hurt You, um rock composto pelo próprio  Big Joe em que ele utiliza uma Telecaster Deluxe, com captadores humbucking para obter o máximo de peso.

A participação dos metais em algumas canções é fantástica, adicionando um clima ainda mais pesado ao show. É muito importante notar que os metais não tocam o tempo todo, o que aumenta consideravelmente a dinâmica da banda. Em T-Bone Shuffle, o gaitista Jefferson Gonçalves ataca ao lado de BJM, num clima absolutamente explícito de blues. Segue-se a participação especial dos blueseiros californianos Jamie Wood (voz) e Johnny Rover (gaita).

No final do show, há uma sensacional conversa entre as guitarras de BJM e de Léo Torresini, segundo guitarrista da banda - mas que pouco perde, em estilo, para o líder. A música é nada menos que Pride and Joy, o alegre blues do saudoso SRV.

Na banda temos, além de Torresini, o grande baixista Fábio Mesquita e o ótimo batera André Carvalho, além de Dan Sebastian no trompete, Thiago Ferté no sax alto e o arranjador AC no sax tenor.

O som do DVD é excelente, com peso na dose exata e profundidade ideal. O som das guitarras é espetacular, um tempero fundamental num disco baseado em sua sonoridade e emoção. A competência de Enrico De Paoli, na engenharia de som, garantiu essa qualidade. A produção geral foi do próprio Big Joe, a produção do show de Iuri Girardi (Privilège), e a iluminação de Luciano Nery. (Sólon do Valle)
 
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