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Edição #161
dezembro de 2012
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Televisão: Lirismo suburbano
Narrativa documental e naturalidade dão o tom da série Suburbia
por Louise Palma 10/12/2012
O subúrbio vem ganhando espaço na televisão brasileira, com as classes menos favorecidas como protagonistas de grandes histórias. Suburbia, série de oito episódios exibida pela Rede Globo, faz parte desse boom, mas de forma bastante particular. Criado por Luiz Fernando Carvalho, o projeto estava engavetado há mais de dez anos e só chegou às telas de TV em novembro.

A ascensão da classe C no Brasil vem provocando uma adaptação na linguagem televisiva e já é possível observar a tendência de tentar agradar a esse novo público. Porém, Suburbia se diferencia pela maneira que aborda a temática. Longe de ter a miséria e a violência como ponto central de história, a série apresenta reflexões que Luiz Fernando considera abandonadas pela grande mídia.

A série é ambientada nos anos 1990 e conta a história de Conceição, uma jovem negra e analfabeta que saiu de Minas Gerais para o Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor. Já no primeiro episódio, Suburbia apresenta ao telespectador a infância pobre da protagonista em uma carvoaria e sua saga até chegar ao Rio, onde consegue um emprego de doméstica na Zona Sul e, mais tarde, é abrigada em Madureira, na casa de uma família de gente simples e cheia de conflitos.

"Suburbia poderia ser lida também como uma fábula social, da eterna luta entre opressores e oprimidos. Em como resistir a este mundo repleto de desigualdades sem perder a pureza e os sonhos", explica o diretor. Foi acreditando no sentido amplo de "subúrbio", onde as pessoas se unem para driblar o abandono oficial da sociedade, que o diretor baseou este novo projeto. "É ali que as trocas e os encontros vão acontecer, ali as pessoas se reconhecem, se ajudam e se identificam com seus pares. O subúrbio afetivo, esse que guardamos na saudade ou que ainda resiste aqui e ali, é o que eu considerei mais relevante de retratar."

Para colocar o novo projeto em prática, Luiz Fernando reuniu uma equipe composta não por funcionários, mas por parceiros de longa data, que são, além de tudo, criadores. Pensando na afinidade com o projeto e no desafio que enxerga em todo o seu processo, o diretor vê a necessidade de se sentir contagiado por ele, e procura que isso aconteça com as pessoas que escolhe para fazer parte de cada uma de suas realizações.

Considerados artistas em suas áreas, cada uma destas vital para traduzir na tela o que Luiz Fernando deseja para suas obras, três nomes foram escolhidos a dedo: o editor Márcio Hashimoto, a figurinista Luciana Buarque e o diretor de fotografia Adrian Teijido.

DO FUNDO DA GAVETA

A ideia de ter o subúrbio como tema era um desejo antigo de Luiz Fernando Carvalho e acabou saindo da gaveta quando o diretor se deparou com o pedido de um projeto que entrasse no ar ainda em 2012. Inspirada em sua vivência pessoal, a personagem central de Suburbia nasceu das anotações sobre Betânia, a "mãe preta" que ele teve por mais de 25 anos.

Assim como Conceição, Betânia começou a trabalhar como faxineira na casa de Luiz Fernando quando ele ainda era criança. "Negra, analfabeta, mas cheia de vida e inteligência, vez por outra ela rememorava seu passado, sua trajetória de vida, fazendo isso com muita riqueza de detalhes, enquanto preparava meu almoço ou arrumava a casa. Eu, ali, diante de tantas memórias fascinantes, um dia comecei a anotá-las sem ter a menor noção do que um dia faria com aquilo tudo", conta o diretor.



As anotações foram o ponto de partida para Suburbia, e, para colocar em prática esta ideia, Luiz Fernando queria um escritor - e não um roteirista - que conhecesse a cultura negra e carioca por dentro. Assim, convidou Paulo Lins, autor de Cidade de Deus, cuja "sensibilidade de escritor manteria a dramaturgia no âmbito de uma fábula 'irracial'".

Apesar de nunca terem trabalhado juntos, a convergência entre os dois foi grande. "Fui logo mostrando as minhas anotações, com as quais ele se identificou de imediato, encontrando pontos em comum entre a história de sua família, fazendo com que os hiatos das minhas anotações fossem preenchidos de forma certeira", conta.

Os capítulos foram desenvolvidos por Paulo Lins em forma de prosa, como se fosse um livro. Depois de prontos, eram adaptados para o roteiro da série por Luiz Fernando e sua assistente Carla Madeira, que pela primeira vez colaborou no texto, chegando à sua forma final.



TOM DOCUMENTAL

Os trabalhos mais recentes de Luiz Fernando Carvalho - A Pedra do Reino, Hoje é Dia de Maria I e II, e Afinal, O Que Querem As Mulheres? - marcaram a trajetória do diretor na televisão por sua narrativa lírica. Porém, Suburbia vai de encontro a esta linguagem, já que as anotações que deram origem ao seriado não são ficcionais.

Usando esta premissa como base, Luiz Fernando chegou a uma narrativa mais documental. "Achei por bem evitar todo e qualquer maneirismo que tornasse aquele depoimento original alegórico, o que, no meu modo de sentir, soaria extremamente falso", explica.

Isso se refletiu não só no texto, que utiliza uma linguagem mais coloquial, mas também na captação das imagens, que dispensou o aparato técnico comum utilizado nas gravações de ficção. Assim, lentes especiais, gruas e travellings foram substituídos por uma câmera mais jornalística.

Por muitas vezes os atores estavam em cena sem saber onde a câmera estava posicionada ou se estavam sendo gravados naquele momento. Este tipo de dinâmica resultou em um alto grau de realismo, capaz de criar confusão entre ficção e realidade.

ELENCO DE DESCONHECIDOS

A narrativa realista de Suburbia tornou-se ainda mais verdadeira com o elenco escolhido para dar vida aos personagens da série, composto por atores, em sua maioria, desconhecidos. Para o diretor, contar esta história com rostos ainda não vistos na televisão fez com que os personagens ficassem mais próximos de pessoas reais, afastando o fantasma da interpretação.

A ideia de Luiz Fernando era levar para a série uma forma de atuar muito próxima da realidade, capaz de confundir o telespectador sobre quem é pessoa e quem é personagem. Para isso, o diretor não pediu que seus novos talentos interpretassem e se preparou para rodar as cenas de forma simples e rápida, sem muitas repetições, evitando, desse modo, que o elenco mecanizasse sua atividade diante das câmeras.

Erika Januzza, que vive a protagonista Conceição, surgiu "como uma anunciação" em uma praça de Belo Horizonte, onde o preparador de elenco Nelson Fonseca e a equipe da série realizava as entrevistas. "A partir do momento em que escalei Erika, uma jovem de Minas Gerais com talento e physique du rôle para encarnar Conceição, criei sem querer um quebra-cabeças para mim onde passou a ser difícil continuar a escalação com atores conhecidos", conta.



Já Ana Pérola, que deu vida à antagonista Jéssica, foi garimpada das ruas do Rio de Janeiro, onde trabalhava como gari. Convidada para adentrar a sala de ensaios sem compromisso, ela não sabia que estava participando de um teste de elenco. "Disse apenas que iríamos desenvolver um trabalho durante uma semana", conta Luiz Fernando.

"O trabalho tinha a ver mais com a coragem do que com teorias dramáticas. Não são atrizes profissionais, são pessoas especiais, cheias de vida, dotadas de talento e carisma, mas sem qualquer técnica. O elenco de Suburbia me ensinou como evitar a caricatura, o pitoresco, a paisagem humana pintada de um ponto de vista puramente externo, excludente e falso", conclui.

CENÁRIOS REAIS

Seguindo a lógica de contar uma história com situações e personagens tão reais para o espectador, a escolha das locações de Suburbia não fugiu à regra. Para Luiz Fernando Carvalho, os lugares onde as cenas se passam são quase personagens da história, que se desenvolve entre a casa da família que acolhe Conceição e a rua.

Suburbia fugiu da proteção das grandes cidades cenográficas para ser gravada em lugares reais. Assim, quadras de baile funk e casas sem reboco das comunidades do Rio de Janeiro tornaram-se locação para a série. "Foi fundamental para que elenco, luz, cenário, figurino, enfim, tudo respirasse livremente. Assim, não haveria solavancos: asfalto era asfalto, concreto era concreto, rua era rua mesmo! Não há nada mais belo e brutal que a realidade", explica o diretor.



Vários bairros das zonas Norte e Oeste do Rio serviram de locação, entre eles Oswaldo Cruz, Quintino, Madureira e o morro do Cruzeiro. As cenas da casa da família foram gravadas em Paquetá, já que a ideia era captar o clima lírico do subúrbio, com ruas de terra e casas de muro baixo. Em termos de produção, gravar na ilha também foi vantajoso por ser um lugar calmo, onde carros não transitam e a circulação de pessoas é menor. Já as cenas dos bailes funk, que marcaram a década de 1990, foram gravadas em uma quadra de uma comunidade em Curicica.

Maior que o desejo de retratar a geografia suburbana com toda a sua crueza e desamparo, Luiz Fernando ressalta que seu interesse era esmiuçar os laços de afeto, tão fortes entre essas pessoas que vivem nestes locais.



EDIÇÃO REGIDA PELA "NÃO-DECUPAGEM"

Dos sets de filmagem, o material ia direto para as mãos de Márcio Hashimoto e de sua assistente, Helena Chaves, em um apart hotel no Rio de Janeiro. Nas três estações - uma destinada à conversão -, equipadas com Avid Media Composer 6.5, a dupla editou tudo o que foi gravado.

Hashimoto trabalhou pela primeira vez com Luiz Fernando Carvalho em 2006, quando fez a edição de A Pedra do Reino, e, desde então, eles repetem a parceria. A sintonia desenvolvida com os anos de trabalho levou a uma dinâmica interessante, dividida em dois momentos. Primeiro, o editor recebe o que foi gravado e faz uma primeira montagem, com sugestões para Luiz Fernando. Com a aprovação do que foi apresentado, a edição é concluída, para, então, ser enviada para a correção de cores de Sergio Pasqualino.

Para Hashimoto, a forma como o diretor gravou Suburbia fez com que a montagem fizesse parte do desenho das cenas. Com muitos atores em ação, as câmeras (duas Arri Alexa com objetivas Master Prime) captavam vários takes, em plano-sequência, de uma mesma cena, criando possibilidades para o trabalho de pós-produção.

"A decupagem não é clássica. Recebemos o material bruto com a mesma cena gravada por câmeras que se comportam de maneiras diferentes", conta. "Existe um desejo e um pensamento dele, de quando escreveu e rodou a cena, e a dinâmica dessa proposta [de montagem] pode levar para outro lado. O que eu faço não é muito montar, mas inventar a cena. É uma aventura conseguir concluir."

A partir das rubricas do texto, onde consegue captar o sentimento das cenas, Hashimoto entende o que o diretor pensou para aquele momento e, em cima disso, faz suas sugestões. "Quando eu começo a montagem, nunca sei o que vai acontecer. É muito libertador do ponto de vista do processo criativo", comenta.

A liberdade que existe é fruto não só do histórico de seis anos de parceria, mas também dos conceitos que dizem respeito à estética, narrativa e música, que vêm sendo discutidos há cerca de um ano, por e-mail. Hashimoto conta que quando o projeto foi apresentado a ele, Luiz Fernando disse que queria fazer Suburbia com custos baixos de produção.



"Ele disse: 'se eu chegar com 50 caminhões, acabou o subúrbio. Quero preservar o que tem no subúrbio, quero atores desconhecidos, que 90% deles sejam negros'", conta. Assim, Hashimoto começa seu trabalho de edição munido das informações acumuladas durante o tempo de pré-produção e das pesquisas feitas por ele, conseguindo transformar a "não-decupagem" em uma série de possibilidades para o material bruto que tem em mãos.

"Quando se trabalha com um diretor sólido, que tem o que ele quer contar e a forma como ele quer contar muito bem resolvidos, é possível trazer colaboração. Há uma expectativa de que eu faça algo que surpreenda, e isso é um desafio maior. Mas é o que faz ficar mais legal", conclui.

IMAGENS DE WALTER FIRMO INSPIRARAM FIGURINO

O figurino de Suburbia foi confiado a uma parceira de longa data de Luiz Fernando Carvalho. Luciana Buarque estreou na televisão em um especial do diretor - Uma mulher vestida de sol - e assinou também o figurino de A Pedra do Reino e das duas temporadas de Hoje é Dia de Maria.

Para elaborar as peças vestidas por Conceição e pelos personagens da série, o primeiro passo da pesquisa foi uma conversa com Paulo Lins. Segundo Luciana, a história de vida do escritor aliado ao seu "rigor acadêmico" abriu um leque de possibilidades conceituais para o que viria a ser criado.

Nos livros, ela mergulhou na história do funk, buscando as raízes do ritmo na cultura negra. Já em Madureira, bairro do subúrbio carioca, Luciana fez compras, observou os hábitos das pessoas que por ali viviam e as cores que elas davam ao lugar. Os próprios atores serviram de fonte para a pesquisa, já que sua origem suburbana refletia no comportamento, nas atitudes e nos gostos, se aproximando da história que Suburbia queria contar aos telespectadores.

Durante este processo, Luiz Fernando participou com referências pessoais, adicionando detalhes ao figurino de alguns personagens. "Ele é um diretor de arte excepcional. Oferece referências sempre incríveis, muitas inéditas", elogia Luciana.

Como muitos dos personagens de Suburbia foram inspirados em pessoas que fizeram parte da vida do diretor, ele fez alguns pedidos. Mãe Bia (Rosa Marya Colin), por exemplo, deveria usar cores muito claras, já que a personagem foi inspirada em alguém que gostava de tons bebê. Já a vestimenta de Seu Aloysio (Haroldo Costa) deveria seguir o estilo de Pixiguinha, em quem o personagem foi inspirado.



"Mas o que definiu o resultado estético final do trabalho foi a fotografia do Walter Firmo", conta Luciana. As imagens feitas pelo fotógrafo carioca, um dos primeiros a valorizar, em seu trabalho, a cultura negra, serviram não só de inspiração, mas também de registro da realidade dos subúrbios do Brasil. "Nos retratos e situações que fotografou, encontramos a dose ideal entre o lirismo e a brutalidade do subúrbio, que era o que gostaríamos de mostrar", complementa.

O subúrbio iluminado e colorido de Walter Firmo parece ainda mais vivo no primeiro episódio da série, que contrapõe a passagem da infância de Conceição em Minas Gerais, e sua chegada ao Rio de Janeiro para sua adolescência. "A diferença está no grau de realismo e de colorido dos figurinos", explica Luciana.

Para esta primeira fase foi criado um universo mais simbólico, "como se fosse um sonho do passado de Conceição". Assim, o figurino da personagem na infância tem cores esmaecidas, cobertas pelo preto do carvão. Já as cenas do Rio de Janeiro, nas quais o conceito documental se estabelece, as cores foram resgatadas para a tela.

Apesar da estética realista de Suburbia ir de encontro à narrativa lúdica vista nos trabalhos anteriores, frutos da parceria entre Luiz Fernando e Luciana, a figurinista garante que o processo artístico não tem relação com o tipo de narrativa eleita para o projeto. "É uma obra de arte que estamos criando, e é com ela que vamos lidar, seja a proposta estética lúdica ou realista", explica.
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