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Edição #117
abril de 2009
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Teatro: Mercadorias e futuro
Lirinha, líder do Cordel do Fogo Encantado, faz experiências com luzes e sons em peça de teatro
por Rodrigo Sabatinelli 4/4/2009
foto: Divulgação
O calor das luzes vermelhas oferece dramaticidade à declamação de um poema
Depois de passar por São Paulo, Recife, João Pessoa, Maceió, Fortaleza, Rio Branco, Teresina, Santos, Santo André, Porto Alegre e Uberlândia, Mercadorias e futuro, espetáculo dirigido e interpretado por José Paes de Lira, o Lirinha - ator, poeta e líder do grupo pernambucano Cordel do Fogo Encantado -, chegou ao Espaço Oi Futuro, no Rio de Janeiro.
No monólogo, ele vive Lirovsky, personagem que desenvolve uma verdadeira parafernália eletrônica para viabilizar a venda de um livro. São equipamentos como pedais que disparam áudios pré-gravados e, principalmente, um carrinho, de onde são acionadas diversas luzes.
Além do aparato e das citações de Benedito Heráclito, João Pedra Maior e Thereza Purpurina, profetas que compõem o livro, seu personagem recorre à obra de outros poetas, não ficcionais, e, com isso, fortalece o argumento da venda.
"Lirovsky mergulha na estética do improviso, decorrente de sua herança poética, com citações de poetas como Zé da Luz, Manoel Filó e do artista Lourival Batista, o Cuquinha, entre outros", diz o ator. 
O desenho de luz da peça tem a assinatura de Jathyles Miranda, iluminador dos shows do Cordel, enquanto a cenografia é feita por Maurício Castro, conceituado artista plástico de Recife. A codireção é da atriz Leandra Leal, mulher de Lirinha.

COMEÇA O ESPETÁCULO

As cortinas se abrem e a plateia, que ainda se ajeita nas poltronas do teatro, se cala. Do lado direito do palco, ao chão, um rádio portátil é iluminado por uma luz de pino. Lirinha, ou melhor, Lirovsky, entra em cena com um PC na mão. O refletor é filtrado com uma gelatina amarela, que aquece o ato. 
No teto e ao fundo, quatro lâmpadas PAR em tom congo blue representam ludicamente o fim da madrugada e o início da manhã, período do dia em que os vendedores saem de suas casas e tomam as ruas.  O personagem reconhece o público, coloca o PC no chão, de modo a iluminar seu rosto, e inicia um prólogo.
Quatro elipsoidais ETC 36º, com focos cruzados partindo de ângulos diferentes - à frente do palco, nas laterais e no fundo - são usados para valorizar as nuances do texto, uma espécie de cartão de visita de Lirovsky. 
Ele, então, apresenta sua engenhoca, um carrinho utilizado para a venda do livro que dá nome ao espetáculo - Mercadorias e futuro. É hora de testar tudo: disparar sons e luzes e atestar a importância do objeto, que é iluminado pelas PARs. 
Um rápido blecaute antecede o acionamento de duas lâmpadas dicróicas, posicionadas na parte dianteira do carro. Elas, assim como todas as demais luzes que saem dele, são controladas por Lirinha através de um console Magma, instalado na parte superior do veículo. 
De acordo com Jathyles, a mesa de seis canais é usada para manipular uma luminária de mesa, as dicróicas, os PCs e as lâmpadas, que são acionadas quando a Rádio Pirata entra no ar, e permite que Lirinha programe e dispare um chase. "Ela é operada por ele [Lirinha] em cena. No entanto, segue como um refletor qualquer para a mesa de luz, onde posso abrir e fechar seu sinal", explica o iluminador. 
Para representar o amanhecer no roteiro do espetáculo, Jathyles entra com uma geral feita com oito PARs em âmbar (09) da Rosco. À frente do palco, Lirovsky está em pleno exercício da venda e tenta convencer as pessoas a comprarem seu livro. 
O personagem declama um poema de Manoel Chudu, poeta popular nordestino, e é iluminado por quatro PARs 64, quentes, avermelhadas, acionadas alternadamente na frente e na contraluz. Com uma luz geral de base, ele é aplaudido pela plateia e, então, começa a preparar o cenário para a próxima cena. 
Lirovsky conta agora com dois caixotes de madeira, dispostos nas laterais do palco, que servem de base para mais dois PCs. Ele declama um novo poema e se lembra da primeira vez em que subiu a um palco de teatro para isso. "Foi aos 12 anos", diz. Em seguida, novamente iluminado por uma linha geral de luzes, justifica o investimento que fez para construir o carrinho com efeitos sonoros e luminosos.
 
O VENDEDOR APRESENTA SUA OBRA

Dentro de uma espécie de janela vermelha, feita com um elipsoidal, Lirovsky apresenta o guerrilheiro revolucionário Benedito Heráclito, um dos profetas compilados em seu livro. "Se o livro não contém o tudo, é nada", repete filosoficamente ao longo da cena.
Em seguida, ele monta um chase na mesa de luz instalada dentro do carrinho enquanto dialoga com a plateia. Esse chase, feito com o master da mesa zerado, é usado segundos depois, quando Lirovsky imita de maneira fiel o cantor Roberto Carlos
Jathyles promove novo blecaute no teatro. Em diversas situações ao longo da peça, a iluminação é feita a quatro mãos. "Lirinha é quem opera todos os faders do carrinho"', diz o iluminador.
O chase é cortado pelo ator e o iluminador torna a abrir o elipsoidal em forma de janela. É hora de falar de João Pedra Maior, profeta que trabalha adivinhando e pintando o futuro em pedras. Para isso, a contraluz recebe tom azulado.
O ator vai até o fundo do palco e através de uma corda ergue uma cortina de LEDs, que simula um céu estrelado. Na sequência, se dirige até o carrinho, retira um display de LEDs de sua carcaça e passa a manuseá-lo violentamente. Nele, está escrita a irônica frase: "Vendo a luz do céu. Quem quer comprar?".
Ao chão e atrás de Lirinha, são acionados oito pin beans, que formam uma meia-luz de contraluz. O efeito degradê se dá através da disposição das luzes e de seus tons - vermelho (26), amarelo (10) e âmbar (21) da Rosco. Tudo isso, ao som de uma trilha sonora típica do experimentalismo de Lirinha.
O foco de elipsoidal é retomado e Lirovsky, então, passa a falar de Thereza Purpurina, profeta que usa cartas de baralho para registrar suas profecias. A geral volta a iluminar a cena, mas logo dá espaço a uma contraluz Broadway pink (339) focada diretamente em seu pedestal de microfone, ao centro do palco. Ele começa a cantar e é, mais uma vez, iluminado por elipsos.

Lirovsky e seu carrinho
Depois de mergulhar no universo dos vendedores de rua, Lirinha chegou à conclusão de que seria necessário criar algo diferente, inusitado, para favorecer a venda do livro no roteiro da peça. Foi aí que teve a ideia de construir um carrinho que tivesse som e luz e convidou o artista plástico Maurício Castro para confeccionar o veículo de Lirovsky, entre outros elementos usados em cena. 
"Maurício começou a carreira pintando. No entanto, com o passar dos anos, se dedicou à construção de objetos fantasiosos, feitos a partir de eletrodomésticos e maquinárias, entre outros elementos", conta Lirinha.
A mesa de luz do carrinho, Lirinha comprou quando ainda criava o espetáculo. Começou a usá-la como um operador de luz, mexendo apenas nos faders, sem as manivelas. Depois, adaptou-a e colocou-a no carrinho, numa referência ao mercado informal de Recife.
Além da indiscutível importância em cena, o carrinho também tem valor fora dela: ele serve de case para os pedais usados por Lirinha, entre outras coisas. Mas tamanha praticidade tem relação direta com a história do personagem. De acordo com Lirinha, Lirovsky é um andarilho, portanto, precisa se locomover com facilidade.
O ator conta ainda que, em diversos momentos da peça, presta singelas homenagens a profissionais que compõem as equipes técnicas de espetáculos teatrais e musicais.
Segundo ele, quando Liroksky enrola os fios espalhados pelo chão ou quando troca a gelatina de um refletor, ele está indireta e diretamente trazendo para a cena algo que acontece corriqueiramente nos bastidores. "Algo que é feito por pessoas que são fundamentais para a realização de um espetáculo, mas que nunca aparecem", explica.

REALIDADE E FICÇÃO

Com o uso de pedais disparadores de samples, Lirinha promove um diálogo entre Lirovsky, seu personagem, e sua mãe, Elizete. Nessa hora, o Broadway pink (339) é jogado por trás dele, do chão para cima. A intenção, segundo Jathyles, é representar o amor incondicional de mãe, que, por vezes, gera incômodo nos filhos.
"Todo garoto, todo jovem, se incomoda com a superproteção dos pais. O exagero no trato é o que causa esse tipo de sentimento, que, no fundo, é bonito", diz o iluminador.
Jathyles mantém o tom de rosa ao longo da canção Vitória, um dueto virtual de Lirovsky e Elizete. Enquanto ele canta, as luzes de frente são acionadas. Quando ela assume a canção, são as contraluzes de chão que atuam.
A fumaça, por sua vez, recorta e revela Lirovsky em diversas situações, como, principalmente, durante um devaneio, feito com os já citados pedais.
O ator volta a vender seu livro, agora de maneira mais ostensiva, debaixo de um elipsoidal. Em seguida, ele sai do foco, é coberto por uma luz geral branca e estabelece um diálogo mais direto com a plateia, para a qual traça um paralelo entre os valores real e imaginário de determinados objetos.
A venda é momentaneamente deixada de lado para que Lirovsky fale da trágica morte de Thereza Purpurina, que se afogou ao se jogar de uma ponte para tentar recuperar o valete de seu baralho, que voara com a força do vento e caíra nas águas de um lago.
Enquanto Lirinha direciona a luminária de seu carrinho para o livro, que tem uma espécie de cartão em quirigami - arte oriental de cortar papéis -, representando a ponte de onde a profeta se jogou, o iluminador da peça corta a frente de luz e utiliza uma contraluz azulada.
Mas Lirovsky, em momento de total delírio, acredita na reencarnação de Thereza. Começa a cantar Ela virá e promove uma verdadeira revolução no cenário, trocando os caixotes de posição e a gelatina de um dos PCs, posicionados sobre eles. Ao vir a face do carrinho, que estava de frente para a plateia, revela detalhes dos aparatos que compõem uma rádio pirata, feitos com uma xerox ampliada de um circuito eletrônico, microlâmpadas e LEDs num circuito misto.
Novamente, o pino em diagonal ilumina o equipamento, ainda à direita do palco. É a hora de a rádio entrar no ar. A geral é cortada e é acionada uma espécie de luz de emergência, um globo vermelho como se fosse uma sirene.
Lirinha direciona o PC amarelo para seu rosto e o iluminador faz um fade out em todos os elementos em cena e, assim, o espetáculo termina. 

A construção e a codireção do espetáculo (por Leandra Leal)
Apesar de estarmos juntos há cinco anos e já termos realizados outros trabalhos em parceria, foi com a experiência de Mercadorias e futuro que Lira e eu nos encontramos de uma forma inédita e radical. Um solo teatral de fronteira foi a primeira coisa que consegui elaborar para definir esse processo, que discute teatro, focando no encontro do intérprete com o público e questionando seu valor para cada um. A dificuldade de, como artista, conviver com a insistente necessidade de dar valor a tudo que nos é tão subjetivo. Ainda misturando música, improviso, poesia, tecnologia e comércio, por que não? A minha identificação com o tema foi imediata. O interesse por Lirovsky, nosso vendedor de qualquer esquina, também. 
Projeto escrito, aprovado, captação feita, começam os ensaios e, pouco a pouco, de produtora a parceira, fui entrando na sala de ensaio, ajudando no aquecimento. Lira fuçando meus livros e a gente discutindo em casa como seria tal cena, eu começando a dar pitaco no texto e uma codireção foi se desenhando. Mas não foi fácil, nada fácil. A ideia encontrou fortes barreiras na prática. A tecnologia foi a primeira. Os aparatos e sistemas criados especificamente para a peça foram difíceis de serem domados. Ainda bem que tínhamos parceiros entendidos de cada área acompanhando o processo, criando somente o que o Lirovsky poderia ter construído. Seria impossível a realização dessa empreitada sem eles. Por fim, conseguimos transformar os fios e máquinas em extensão do corpo desse vendedor e artista, amparando a sua solidão em cena ou na vida. 
Também foi muito difícil, para mim, encontrar a medida certa na direção desse projeto, diferente de tudo que já participei. Foi um risco, que nem pensei antes de começar. Ele aconteceu e eu tive que redescobrir por onde chegar nos lugares mais escondidos desse contador de histórias contemporâneo e trazê-lo para um terreno novo e desafiador, nem sempre confortável. 
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